O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República na eleição de 2026 foi marcado, antes mesmo de começar, pelo vaivém de Augusto Cury. Candidato do Avante, o escritor e psiquiatra chegou aos estúdios em São Paulo na noite de domingo, 23 de agosto, e, em vez de entrar, abriu uma transmissão ao vivo no Instagram para anunciar que não participaria. Cerca de vinte minutos depois, voltou atrás e subiu ao palco.
A justificativa para a desistência foi a ausência dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL. "Estou profundamente magoado. Não é um debate porque os 2 primeiros candidatos estão ausentes", disse Cury, que também classificou o encontro como teatro e afirmou que o país vive uma polarização doentia. Questionado por repórteres sobre por que não faria essas críticas dentro do estúdio, insistiu na desistência e entrou no carro. Minutos depois, disse que mudou de ideia por respeito aos jornalistas e à emissora que organizou o evento. A reversão ocorreu enquanto ele participava de uma transmissão ao lado do empresário e influenciador Pablo Marçal.
Toda a cobertura converge nos fatos centrais. O encontro ficou esvaziado: além de Lula e Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, do Novo, anunciou ao meio-dia do mesmo domingo que não iria, alegando que a mudança da data, de 16 para 23 de agosto, havia sido aceita na expectativa da participação do presidente e que, sem ele, a alteração perdeu o propósito inicial. Ficaram no palco Augusto Cury, Ronaldo Caiado, do PSD, e Renan Santos, do Missão. Há convergência também sobre a moldura legal: a Lei das Eleições, de número 9.504 de 1997, obriga emissoras de rádio e televisão a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco congressistas, mas não obriga ninguém a comparecer. A presença é voluntária e depende de cálculo de campanha.
As ênfases divergem. A cobertura de centro organizou o episódio pela cronologia e pelo contexto institucional, explicando as regras do convite, registrando que a campanha do presidente avaliou que ele seria o alvo principal no palco e que a de Flávio Bolsonaro condicionava a ida à presença do petista, e situando as ausências no quadro das pesquisas, em que o levantamento Datafolha citado dava 39% das intenções de voto a Lula e 33% ao senador. Veículos de direita deram outro peso ao mesmo material: trataram como estopim da desistência de Cury a entrevista concedida por Lula a outra emissora no mesmo horário do debate, apresentaram a ausência do presidente como fuga do confronto e destacaram o trecho do protesto em que o candidato afirma que campanhas gastam 30 milhões de reais por mês para impulsionar imagens, cifra reproduzida sem verificação independente. Entre os veículos de esquerda não houve registro do episódio no conjunto de matérias reunidas até aqui, o que deixa sem cobertura direta a leitura que costuma vir desse campo, a de que o problema central é o custo das campanhas e a migração do debate público para plataformas privadas.
O que ainda não se sabe é se Lula e Flávio Bolsonaro participarão dos próximos debates da campanha, e sob quais condições; se a ausência dos dois terá custo mensurável nas pesquisas seguintes; e o que efetivamente motivou a mudança de posição de Cury em menos de meia hora, já que sua campanha não detalhou publicamente a conversa que antecedeu o retorno. Também não há, até o momento, verificação independente do valor mensal de impulsionamento citado pelo candidato.