A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) entrou em uma troca pública de farpas com o empresário e jornalista Paulo Figueiredo, em um episódio que expôs divergências dentro do campo bolsonarista. O atrito começou depois que Damares, questionada sobre sua participação em um encontro de mulheres conservadoras organizado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), respondeu apenas que estava decidindo se compareceria. Figueiredo, aliado dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, ironizou a postura da parlamentar e sugeriu que, se o evento fosse promovido por figuras da esquerda, como a primeira-dama Janja ou a deputada Maria do Rosário (PT-RS), as mulheres conservadoras estariam todas unidas.
A senadora respondeu pelas redes sociais. Apresentou-se a Figueiredo, descreveu sua trajetória e afirmou ser a mulher que enfrenta pedófilos, corruptos e o crime organizado de frente. Lembrou sua passagem pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos durante o governo Bolsonaro e convidou o empresário a visitar seu gabinete em Brasília. Figueiredo, por sua vez, respondeu que não pode voltar ao Brasil porque o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, cancelou seu passaporte há cerca de três anos. Ele afirmou lutar contra o que chama de 'regime' e cobrou da senadora uma atuação mais firme contra o magistrado.
A cobertura de centro relatou os fatos com paridade, reproduzindo as falas dos dois lados e contextualizando que, em 2023, o STF determinou o bloqueio das contas em redes sociais e do passaporte de Figueiredo. Segundo essa cobertura, o empresário é investigado pela Procuradoria-Geral da República por suposta disseminação de discursos antidemocráticos e por coação no curso do processo, tendo, conforme a denúncia, atuado ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para buscar sanções dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras.
Veículos de direita enfatizaram o tom de autodefesa de Damares, destacando sua coragem e sua lealdade a Bolsonaro, e ressaltando a queixa de Figueiredo de estar há anos impedido de entrar no país por decisão judicial que ele classifica como perseguição. Já uma leitura de esquerda tenderia a sublinhar que o episódio escancara a fragmentação de um grupo que se apresenta como coeso, e que um de seus articuladores responde a investigações por buscar punições estrangeiras contra o próprio país.
Todos os lados convergem em pontos básicos: houve a troca de mensagens, o evento de mulheres conservadoras existe e está ligado a Flávio Bolsonaro, e o atrito ocorre logo após o desentendimento público entre Michelle e Flávio Bolsonaro, de quem Damares é próxima e cuja gravação ela apoiou. A divergência está no enquadramento: a direita vê coragem e perseguição judicial, enquanto a leitura crítica vê disputa de poder e questionamento sobre a conduta de Figueiredo no exterior.
O que ainda não se sabe é se Damares confirmará presença no encontro, qual será o desfecho das investigações que pesam sobre Figueiredo e até que ponto o racha entre as alas bolsonaristas afetará a organização do campo conservador rumo às eleições de 2026.