Pela primeira vez desde 2014, a identificação dos brasileiros com a direita superou a da esquerda, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 3 de julho de 2026. O levantamento aponta que 44% dos eleitores se enquadram na direita ou centro-direita, contra 39% na esquerda ou centro-esquerda, e 17% no centro. A diferença de cinco pontos percentuais está acima da margem de erro de dois pontos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores de 16 anos ou mais em 139 municípios, nos dias 17 e 18 de junho, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-09956/2026.
Um ponto metodológico atravessa toda a cobertura: a classificação não resulta de uma pergunta direta sobre como cada entrevistado se define. O Datafolha chega ao posicionamento a partir de uma série de dezesseis perguntas — dez sobre comportamento, envolvendo temas como armas, pobreza, criminalidade, homossexualidade e religião, e seis sobre economia, ligadas a impostos, leis trabalhistas e atuação do Estado. Na divisão detalhada, 15% ficaram à direita, 29% na centro-direita, 17% no centro, 26% na centro-esquerda e 13% à esquerda.
A cobertura de centro relatou a virada em tom factual, situando-a na série histórica. Em 2014, sob a presidência de Dilma Rousseff, a direita reunia 45% e a esquerda, 35%. Em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, o quadro se invertia: a esquerda somava 49% e a direita, 34%. O resultado de 2026 representa, portanto, uma nova inversão. Os veículos de centro também destacaram os recortes: entre os homens, 50% são classificados à direita e 33% à esquerda; entre as mulheres, a esquerda fica à frente, com 44% contra 37%. Entre evangélicos, 52% se colocam à direita.
Veículos de direita enfatizaram o caráter histórico da virada e o fato de ela ocorrer sob a gestão Lula, lendo o resultado como afastamento de um enquadramento estatista. Destacaram sobretudo a mudança na percepção sobre a pobreza: a parcela que a atribui à 'preguiça de quem não quer trabalhar' quase dobrou, de 22% para 40%, enquanto o apoio ao direito de possuir arma legalizada subiu de 35% para 41%. No eixo de comportamento, a direita saltou de 39% para 52%.
Veículos de esquerda, por sua vez, tenderam a ressaltar que a virada se concentra nos temas de costumes, não na economia: no eixo econômico, ligado a impostos, direitos trabalhistas e papel do Estado, a esquerda permanece à frente. Essa leitura sublinha ainda que 58% dos entrevistados seguem creditando a pobreza à falta de oportunidades iguais — posição majoritária — e vê no salto da tese da 'preguiça' um sinal de endurecimento social. A liderança da esquerda entre as mulheres é apresentada como resistência a um giro conservador uniforme.
As coberturas convergem nos números centrais e na metodologia. A divergência é de ênfase: onde a direita vê consolidação de valores liberais e conservadores, a esquerda vê uma mudança restrita a costumes, com a economia ainda inclinada ao Estado garantidor. O que ainda não se sabe é como esse deslocamento ideológico se traduzirá em intenção de voto na eleição presidencial de 2026, já que a pesquisa mede identificação de valores, não preferência por candidatos, e o próprio instituto ressalta que as margens de erro são maiores nos recortes por gênero, religião e região.