O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira decidiram não embarcar na candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e passaram a manter canais abertos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na largada da campanha de 2026. Os três atuaram para que a federação União Brasil-PP e o Republicanos adotassem neutralidade nacional na disputa, decisão que esvaziou a coligação montada pelo Partido Liberal.
A cobertura de centro relatou que Lula teve três reuniões com Davi Alcolumbre nas duas últimas semanas, recebeu apoio explícito de Hugo Motta e viu o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, e Arthur Lira agirem para que o partido não indicasse o vice de Flávio Bolsonaro. Segundo essa apuração, a senadora Tereza Cristina chegou a ser convidada para a vaga e teve o nome barrado dentro da própria legenda. A neutralidade valeu inclusive em estados que o candidato do Partido Liberal considerava garantidos, como Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Os dois enquadramentos convergem em três pontos. O primeiro é a leitura de que Lula lidera as pesquisas, o que torna arriscado para os caciques amarrar-se ao adversário. O segundo é a disputa pelo comando da Câmara e do Senado em 2027, que será decidida pelos parlamentares eleitos em outubro. O terceiro é que a neutralidade nacional liberou os diretórios estaduais para acordos próprios, o que permite que a mesma sigla esteja com o Partido Liberal em um estado e com o PT em outro.
Veículos de esquerda enfatizaram o componente de conveniência do movimento, descrevendo-o como abandono do candidato do Partido Liberal por temor de derrota nas urnas, e destacaram que Arthur Lira recebeu apoio público de Flávio Bolsonaro para a disputa ao Senado em Alagoas sem retribuir o gesto na eleição presidencial. Essa cobertura registrou ainda que a ausência das três legendas afeta a divisão de recursos partidários e o tempo de propaganda da campanha presidencial do Partido Liberal.
A cobertura de centro acrescentou um elemento ausente nessa leitura: o pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, para financiar um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, episódio apontado como fator que ajudou a afastar o Centrão do candidato. Ciro Nogueira, alvo de mandado de busca e apreensão em investigação da Polícia Federal sobre atuação favorável a interesses do banqueiro, nega irregularidade e passou a evitar campanha ao lado de Flávio Bolsonaro.
O mesmo bloco de cobertura descreveu o pano de fundo institucional. A derrota da indicação do ministro Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal no Senado, a primeira rejeição do tipo em 132 anos, travou pautas de interesse do governo, entre elas a proposta de emenda que acaba com a escala de trabalho 6x1, a chamada PEC da Segurança e o projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos. Depois das reuniões entre Lula e Davi Alcolumbre, esses textos voltaram a andar nas comissões, enquanto a vaga aberta na Corte deve ficar para depois das eleições.
Há tensão também do outro lado. O Partido Liberal projeta eleger a maior bancada do Senado e ameaça lançar candidato próprio ao comando da Casa para pautar pedidos de impeachment de ministros do Supremo, que a presidência atual tem resistido a levar ao plenário. Entre os nomes citados pelo campo bolsonarista para a disputa de 2027 aparecem os senadores Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, e Tereza Cristina.
Até o momento, veículos de direita não publicaram cobertura própria sobre o movimento do Centrão, de modo que a leitura do campo bolsonarista aparece apenas de forma indireta, pelas posições atribuídas ao Partido Liberal nas duas coberturas disponíveis.
O que ainda não se sabe é se Davi Alcolumbre e Arthur Lira farão declaração formal de voto até o fim da campanha, quem ocupará a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal, se o Partido Liberal terá de fato a maior bancada do Senado e quando ocorrerá a reunião entre Lula e Hugo Motta, combinada por telefone e ainda sem data marcada.