A menos de um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026, a disputa presidencial brasileira entrou em uma sequência intensa de divulgação de pesquisas. Em 2 de setembro, o instituto Quaest apresentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 37% das intenções de voto, o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 30% e o escritor Augusto Cury (Avante) com 10%. No dia seguinte, o PoderData divulgou um levantamento com 3.000 entrevistados, colhido entre 30 de agosto e 2 de setembro, em que Lula tem 37%, Flávio Bolsonaro 34% e Cury 10%, com margem de erro de 2 pontos percentuais. Ainda em 3 de setembro, o Datafolha anunciou e divulgou nova rodada nacional, feita com cerca de 2 mil eleitores ouvidos presencialmente entre 1º e 3 de setembro, registrada no Tribunal Superior Eleitoral.
A cobertura converge em alguns pontos objetivos. Esta é a primeira leva de pesquisas realizada depois das sabatinas dos candidatos à Presidência na televisão e do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, em 28 de agosto. Todos os levantamentos citados informam nível de confiança de 95%, margem de erro declarada e número de registro no Tribunal Superior Eleitoral. E há acordo sobre o movimento mais visível da semana: o crescimento de Augusto Cury, que marcava 2% no Datafolha de 21 de agosto, apareceu com 7,8% na pesquisa Atlas, passou de 5% para 11% entre duas rodadas da BTG Pactual/Nexus e chegou a 10% tanto na Quaest quanto no PoderData. Na rodada anterior do Datafolha, Lula tinha 39% e Flávio Bolsonaro, 33%, com 47% a 43% na simulação de segundo turno entre os dois.
As ênfases, porém, se separam. Veículos de esquerda destacaram a permanência de Lula na liderança em todos os cenários de primeiro turno e trataram a alta de Cury como fenômeno de redes sociais e de exposição na propaganda eleitoral, lembrando que pesquisa é retrato do momento da coleta e não previsão do resultado. A cobertura de centro relatou os números com metodologia e série histórica e acrescentou o pano de fundo judicial da semana, com as investigações do chamado Caso Master, os três inquéritos abertos pela Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva e as revelações sobre as conexões entre o empresário Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sem afirmar que esses fatos tenham movido as intenções de voto. Já veículos de direita enfatizaram o cenário do PoderData em que Flávio Bolsonaro chega a 45% contra 44% de Lula no confronto direto de segundo turno, o empate técnico no primeiro turno e as simulações em que Romeu Zema e Ronaldo Caiado ficam a 2 pontos do presidente, além de repetirem ressalva metodológica que evoca as discrepâncias entre pesquisas e urnas em 2022.
Há também divergência de recorte entre os institutos. O Datafolha testou quatro cenários de segundo turno e deixou Augusto Cury de fora deles, enquanto a Quaest simulou cinco confrontos. A diferença de intenção de voto atribuída a Flávio Bolsonaro varia de 30% na Quaest a 34% no PoderData, distância maior que a margem de erro declarada pelos dois institutos, e as metodologias não são idênticas: há coleta presencial em pontos de fluxo, recrutamento digital e amostras contratadas ora por veículos, ora pelo próprio instituto.
O que ainda não se sabe é relevante. Os números da nova rodada do Datafolha não constam do material analisado, apenas o anúncio de sua divulgação e a descrição da coleta. Não há explicação pública para a distância entre os percentuais de Flávio Bolsonaro em institutos que foram a campo em dias vizinhos. Também não está medido, de forma isolada, quanto do movimento de Augusto Cury vem do horário eleitoral gratuito, quanto vem das sabatinas na televisão e quanto vem da circulação em redes sociais, nem como ele se comportaria em um segundo turno que os principais institutos ainda não simulam.