O governo federal lançou na segunda-feira, 29 de junho de 2026, o Desenrola Adimplentes, uma nova etapa do programa Desenrola Brasil voltada agora aos bons pagadores. A cerimônia ocorreu no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Fazenda, Dario Durigan. Depois de focar na renegociação de dívidas de inadimplentes, o governo passa a mirar quem mantém as contas em dia, mas ainda convive com juros elevados.
O público central são os trabalhadores informais, que não têm acesso ao crédito consignado da CLT, do servidor público ou do INSS, e os estudantes egressos do Fies. Pela nova modalidade, será possível substituir empréstimos caros por operações com taxa máxima de 1,99% ao mês. Para aderir, o consumidor precisa ter um crédito pessoal não consignado de até R$ 15 mil por instituição, ter pago ao menos quatro parcelas e estar em dia ou com atraso de no máximo 90 dias. As operações terão garantia do Fundo Garantidor de Operações, mecanismo que reduz o risco dos bancos. O governo estima alcançar de 200 mil a 500 mil trabalhadores informais.
O pacote inclui ainda o Fies Empreendedor, com juros de 0,87% ao mês e financiamento de até R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para pessoas jurídicas, destinado a recém-formados que mantiveram o financiamento estudantil em dia. Há também a regulamentação do consignado privado, que permite usar o saldo do FGTS como garantia, igualmente com teto de 1,99% ao mês. Como contrapartida, os beneficiários terão o CPF bloqueado em plataformas de apostas por seis meses. O atendimento inicial será feito pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil, enquanto os bancos privados avaliarão a adesão caso a caso.
Nesses pontos factuais a cobertura converge. A reportagem de centro, como a do g1 e do Correio Braziliense, relatou de forma técnica as regras, as taxas e o público-alvo, reproduzindo a fala de Durigan de que o trabalhador informal honra dívidas pagando os juros mais altos do país e agora poderá seguir honrando com taxa mais baixa.
É no enquadramento que os lados se separam. Veículos de esquerda, como a CartaCapital, destacaram o caráter de proteção social da medida, apresentando-a como um passo do governo Lula para incluir um trabalhador historicamente excluído das linhas de crédito baratas e para evitar o superendividamento antes que ele aconteça. Já uma leitura de direita enfatizaria o timing do anúncio, feito às vésperas de 4 de julho, quando entram em vigor as restrições da legislação eleitoral que impedem agentes públicos candidatos de participar de eventos oficiais de divulgação, além de questionar o custo fiscal e a real adesão dos bancos. Esse ponto, aliás, foi levantado pela própria CartaCapital: a Federação Brasileira de Bancos decidiu não apoiar a iniciativa por considerar baixo o incentivo econômico, e a adesão ficará a critério de cada instituição.
O que ainda não se sabe é qual será o alcance real do programa sem o apoio dos grandes bancos privados, já que a participação é voluntária. Também chamam atenção as estimativas divergentes de beneficiários, que variaram de 500 mil a cerca de 3 milhões de pessoas conforme o veículo, sem detalhamento da metodologia. Faltam ainda dados sobre o custo fiscal da garantia pública e sobre o cronograma de entrada das instituições privadas.