O deputado federal Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, foi anunciado nesta quarta-feira, 5 de agosto de 2026, como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. A escolha recaiu sobre um parlamentar com longo histórico de embates públicos com o Supremo Tribunal Federal, a ponto de já ter classificado a Corte como uma "ditadura judicial".
O episódio mais recente citado nas coberturas é o discurso do deputado na tribuna da Câmara, em 8 de julho, quando afirmou: "Quero deixar registrado para a História: o Brasil vive uma ditadura! Uma ditadura judicial". Segundo o material publicado, entre os ministros já alvo de suas críticas estão Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Dias Toffoli. O argumento recorrente do parlamentar é o de que a Justiça persegue bolsonaristas, e suas críticas se concentram nas condenações de envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
A cobertura de centro relatou o anúncio de forma direta, registrando a data, a lista de ministros criticados e o teor da fala de julho, e acrescentou uma leitura política: a indicação sugere que a chapa deve investir no confronto com o Judiciário, apesar das promessas anteriores de moderação. Essa inferência sobre o rumo da campanha é o ponto em que as duas coberturas do caso convergem — ambas tratam a escolha do vice como sinal de estratégia, não como detalhe burocrático de chapa.
Veículos de esquerda foram além do perfil político e reuniram o histórico judicial do indicado. Registraram que Gaspar é acusado de estuprar uma adolescente de 13 anos, denúncia apresentada por um deputado federal e uma senadora, e que, em abril deste ano, a Polícia Federal pediu ao Supremo autorização para apurar o caso. Segundo essa denúncia, existiriam documentos e áudios indicando a relação, que teria resultado em gravidez, além de relatos de tentativas de suborno para manter o silêncio da família. O caso segue em andamento e aguarda posicionamento da Procuradoria-Geral da República. A mesma cobertura informa que o deputado é investigado no Tribunal de Contas da União por suspeitas em repasses de emendas parlamentares de R$ 6 milhões ao município de São José da Laje, em Alagoas, onde técnicos do órgão apontaram indícios de irregularidade.
A divergência de cobertura aparece exatamente aí. Enquanto o enquadramento de esquerda apresenta a indicação como acumulação de risco institucional e de responsabilização pendente, tratando os ataques ao Supremo como parte de um projeto de enfraquecimento do controle judicial, a cobertura de centro se limita ao histórico de embates com a Corte e não menciona as investigações. Até o momento, veículos de direita não aparecem entre as fontes que cobriram o episódio; o contraponto disponível é o próprio argumento do deputado, reproduzido nas duas matérias, de que as decisões do Supremo configuram perseguição política a apoiadores de Jair Bolsonaro.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhuma das coberturas traz resposta do deputado às acusações, nem manifestação da chapa sobre elas. Não há informação sobre prazo para a Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia formal, nem sobre o estágio exato do processo no Supremo. Também não se sabe qual será o desfecho da apuração no Tribunal de Contas da União sobre as emendas, nem se a indicação será formalizada sem contestação dentro do próprio partido. Por fim, não há registro público, no material disponível, de como Flávio Bolsonaro justifica a escolha diante das promessas anteriores de moderação.