El Niño pode levar 49 milhões à fome aguda até 2027, alerta ONU
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O alerta expõe como o choque climático recai primeiro sobre quem já vive na ponta mais frágil da economia global: famílias de agricultura de subsistência, populações em zonas de conflito e países pobres que não escolheram o aquecimento do planeta. Sob esse prisma, os 49 milhões de novos famintos não são um acidente meteorológico, e sim o resultado previsível de desigualdade estrutural somada à retração do financiamento humanitário internacional, que reduziu inclusive a capacidade de monitorar a crise antes que ela estoure.
Veículos deste lado: Diário do Centro do Mundo
O Programa Mundial de Alimentos, agência humanitária da ONU, divulgou nesta quarta-feira um relatório segundo o qual o fortalecimento do El Niño pode empurrar ao menos 49 milhões de pessoas para a fome aguda até o fim de 2027.
Veículos deste lado: O Globo
O relatório funciona como aviso antecipado para cadeias produtivas e para a gestão pública: quebra de safra, alta de preço de alimento e pressão inflacionária em países que já operam no limite fiscal.
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Toda a cobertura reproduz os mesmos números do relatório: 49 milhões de pessoas a mais em fome aguda até o fim de 2027, total de 274 milhões em 45 países, alta de 22%, pico do fenômeno entre setembro e dezembro e maior crescimento proporcional na América Central, de 83,1%. Há acordo também sobre a lógica da prevenção, com cada dólar aplicado antes evitando de 3 a 7 dólares em perdas futuras.
A Organização das Nações Unidas alertou nesta quarta-feira que o fortalecimento do El Niño pode empurrar ao menos 49 milhões de pessoas para a fome aguda até o fim de 2027. O relatório é do Programa Mundial de Alimentos, a agência humanitária que coordena a assistência alimentar da ONU, e projeta que o número de pessoas incapazes de atender às necessidades diárias de alimentação em 45 países vulneráveis suba de aproximadamente 225 milhões para 274 milhões, alta de cerca de 22%.
O documento estima em 81% a probabilidade de o fenômeno atual se tornar muito forte, com temperaturas da superfície do Oceano Pacífico nos níveis mais altos desde pelo menos 1982, o que poderia torná-lo o episódio mais intenso desde 1950. O pico é esperado entre setembro e dezembro deste ano, mas os efeitos devem se estender por 2027, porque secas, enchentes, calor extremo e mudanças no regime de chuvas comprometem plantio e colheita das safras seguintes. Em 2015 e 2016, segundo a própria agência, um episódio semelhante afetou entre 60 milhões e 100 milhões de pessoas.
Os números regionais são idênticos em toda a cobertura. América Latina e Caribe podem somar mais de 16 milhões de pessoas adicionais em insegurança alimentar aguda, e a América Central deve registrar a maior alta proporcional entre todas as regiões avaliadas, de 83,1%. No leste e no sul da África, mais de 18 milhões de pessoas podem enfrentar piora no acesso a alimentos, aumento de 26%, com risco agravado pela dependência de agricultura de subsistência movida pelas chuvas. Na Ásia e no Pacífico, a projeção é de 8,2 milhões de pessoas a mais, enquanto África Ocidental e Central podem ter alta de 12%, chegando a quase 6 milhões.
Veículos de esquerda destacaram a dimensão de vulnerabilidade social do alerta, com ênfase na fala do diretor executivo interino da agência, para quem o fenômeno representa uma ameaça enorme à segurança alimentar de quem já vive em situação frágil, e no argumento de que agir antes protege vidas e meios de subsistência. Nessa leitura ganham relevo os programas de ação antecipada acionados desde maio em Sudão do Sul, Chade, Mauritânia, Uganda, Guatemala e El Salvador, com mais de 14 milhões de dólares para cerca de 500 mil pessoas, e o alcance de 1,3 milhão de pessoas em 18 países neste ano.
Veículos de direita enfatizaram a cadeia econômica do problema: menos produção agrícola significa menos oferta, preço de alimento em alta e pressão sobre países que já convivem com pobreza e conflito. Essa cobertura foi a única a registrar que o governo federal brasileiro anunciou um plano de R$ 1,3 bilhão para enfrentar os efeitos do fenômeno, com ações de proteção à agricultura, reforço de estoques públicos de alimentos e prevenção de desastres, e deu peso aos instrumentos de mercado usados na resposta, como seguro contra desastres, crédito e pagamentos digitais.
A cobertura de centro relatou o elemento mais desconfortável do relatório: segundo o diretor do serviço de análise de segurança alimentar da agência, cortes no financiamento de doadores dos Estados Unidos e da Europa reduziram a capacidade de monitorar a evolução da insegurança alimentar, o que pode atrasar a identificação de novas crises justamente quando o acompanhamento frequente é decisivo. Essa cobertura acrescentou ainda que os mercados globais entraram no ciclo em posição relativamente favorável, após boas colheitas em 2025, mas que o conflito no Oriente Médio e eventuais perdas de safra podem voltar a pressionar preços.
Há convergência sobre a aritmética da prevenção: a experiência de episódios anteriores indica que cada dólar investido antes do choque evita entre 3 e 7 dólares em perdas e custos humanitários futuros. A agência mantém planos preventivos em mais de 50 países, em parceria com a organização de alimentação e agricultura da ONU e com o escritório de coordenação de assuntos humanitários.
O que ainda não se sabe é o essencial. A intensidade final do fenômeno permanece uma probabilidade, não uma certeza, e a própria agência afirma que os impactos variam por região e seguem sujeitos a incerteza. Nenhuma das reportagens informa quanto dinheiro seria necessário para cobrir a resposta completa, qual o tamanho exato do corte de financiamento dos doadores, nem como e quando o plano brasileiro de R$ 1,3 bilhão será executado. Também não há detalhamento sobre quais safras brasileiras estariam mais expostas nem sobre o efeito esperado no preço dos alimentos no país.
ONU alerta que o El Niño pode levar 49 milhões de pessoas à fome aguda até 2027 e elevar o total global a 274 milhões.

Fenômeno climático deve agravar a insegurança alimentar em 45 países até o fim de 2027; América Central e sul da África estão entre as regiões mais afetadas

Relatório do Programa Mundial de Alimentos estima que o número de pessoas incapazes de atender às necessidades diárias de alimentação chegará a 274 milhões até o fim de 2027, impulsionado por secas, enchentes e perdas de safras
