Três dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, uma análise escrita de Washington propõe olhar para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para a semana seguinte, com as lentes do resultado brasileiro. Até o momento, apenas um veículo publicou o texto, em formato de coluna de opinião, e a story reúne só essa leitura.
O ponto de partida são três candidatos republicanos pouco conhecidos: Warren Petersen, Brian Strickland e Doug Lloyd. Eles disputam, respectivamente no Arizona, na Geórgia e em Michigan, cargos que dão controle sobre a organização das eleições estaduais. Os três repetem a alegação de Donald Trump de que a eleição de 2020, vencida por Joe Biden, foi fraudada. Como os Estados Unidos não têm uma Justiça Eleitoral federal, o texto alerta que estados decisivos para a disputa presidencial de 2028 podem ficar sob o comando de quem nega resultados.
A coluna lembra que investigações na Geórgia e em Michigan, com custo milionário, não encontraram irregularidades em 2020. Cita um levantamento que identificou 193 candidatos republicanos, em 41 estados, que acreditam na tese da fraude, e pesquisas segundo as quais um terço dos eleitores americanos espera que o outro lado burle a votação. Relata ainda que Trump ofereceu recompensa por denúncias de fraude, ampliou operações da polícia federal americana contra adversários e declarou impossível uma vitória da oposição sem fraude.
O paralelo com o Brasil é o centro do argumento. Segundo o texto, Trump nunca reconheceu derrota, assim como o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022 e, agora, o senador Flávio Bolsonaro, que não admitiu a derrota para Lula em dissonância com o próprio partido. Trump também teria insinuado, sem provas, falta de lisura no pleito brasileiro em que Flávio, apoiado por ele, perdeu. A coluna registra que Flávio liderou o primeiro turno e que a direita avançou no Congresso brasileiro neste ano.
O texto apoia sua tese no professor David Nemer, da Universidade da Virgínia, que chama de maldição dos dois anos a coincidência de ciclos políticos nos dois países: vitória da direita radical nos Estados Unidos em 2016 e no Brasil em 2018, derrotas em 2020 e 2022, e ataques às sedes de poder em Washington em 2021 e em Brasília em 2023. Para Nemer, a reeleição de Lula encerrou esse ciclo e oferece pistas para enfrentar extremistas em outros países.
Como se trata de cobertura de fonte única e de caráter opinativo, o enquadramento é o do colunista: a defesa da democracia como regime que garante até aos seus críticos o direito de disputar o voto, e a proposta de punir com rigor quem denuncia resultados desfavoráveis sem indícios de crime. Nenhum dos citados, nem Flávio Bolsonaro, nem o Partido Liberal, nem os candidatos republicanos, aparece com voz própria no texto.
O que ainda não se sabe é como Petersen, Strickland e Lloyd se sairão nas urnas e se, eleitos, vão interferir na certificação de resultados. Também não está claro qual será a resposta institucional no Brasil à recusa de Flávio em reconhecer a derrota, nem o teor exato das declarações de Trump sobre a eleição brasileira.