Emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Yury do Paredão, do MDB do Ceará, foram usadas por ao menos cinco municípios cearenses para contratar shows do cantor de forró Jonas Esticado. O detalhe central da história é que o próprio parlamentar é sócio e empresário do artista. A contratação ocorreu por meio da empresa Jonas Esticado Gravações & Edições Musicais LTDA, que tem como sócios o cantor e o deputado, e é administrada pela mãe do parlamentar.
A cobertura de centro, que originou a apuração, relatou que cada apresentação teve cachê de R$ 300 mil. Os recursos foram indicados ao Orçamento da União por meio da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados e chegaram às prefeituras ao longo de 2025, depois que os municípios firmaram convênios com o Ministério do Turismo. Em Aurora, a prefeitura usou R$ 300 mil da verba para contratar o cantor durante as comemorações dos 142 anos da cidade. Em Mombaça, parte dos recursos do Festival Viva Mombaça veio de emenda indicada por Yury do Paredão e pelo deputado Eunício Oliveira, também do MDB do Ceará. Em Farias Brito, outros R$ 300 mil pagaram a apresentação na ExpoVaq, realizada em setembro de 2025.
Veículos de direita destacaram o conflito de interesses e o uso de dinheiro público em benefício de empresa ligada ao próprio parlamentar que indicou os recursos. A ênfase recai sobre a responsabilidade pessoal do deputado e sobre a fragilidade do sistema de emendas, visto como pouco transparente e suscetível à captura por interesses privados. Numa leitura que se alinharia à esquerda, o caso aponta para a falta de controle sobre verbas que deveriam cumprir função social em municípios pobres do interior, e reforça a defesa de regras mais rígidas de fiscalização para que o orçamento não enriqueça quem o indica.
Procurado, Yury do Paredão afirmou que as emendas destinam recursos aos municípios, mas não determinam a contratação de artistas ou empresas específicas. Segundo o deputado, cabe às prefeituras definir a programação dos eventos, conduzir os processos administrativos, efetuar os pagamentos e prestar contas aos órgãos de controle. Em nota, o gabinete sustentou que as escolhas seguem critérios de mercado, como capacidade de atrair público e identidade cultural, e que a atuação do parlamentar no setor artístico antecede o mandato. O Ministério do Turismo informou apenas que as emendas são de responsabilidade da Comissão de Turismo da Câmara e que cabe à pasta cumprir as regras vigentes.
O que ainda não se sabe é se algum órgão de controle, como o Tribunal de Contas da União ou o Ministério Público, abriu apuração formal sobre os repasses, e qual foi o total de recursos efetivamente destinados ao cantor em relação a outros artistas contratados pelas mesmas prefeituras. Também não há, na cobertura disponível, detalhamento sobre eventual conflito com regras de vedação a contratos públicos que beneficiem parlamentares.