As emendas parlamentares entraram no centro da disputa pela Presidência da República em 2026. O mecanismo movimenta cerca de R$ 50 bilhões e responde por aproximadamente um quinto do orçamento livre da União, e o seu futuro passou a ocupar espaço nos planos de governo dos principais candidatos, cada um com uma resposta distinta para a relação orçamentária entre o Executivo e o Congresso Nacional.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, adota a posição mais dura. Seu plano de governo classifica o sistema atual como uma grave distorção na elaboração e na gestão do orçamento federal e afirma que as emendas impositivas e o chamado orçamento secreto mudaram a relação entre os Poderes, sequestram o orçamento público, dispersam recursos e reduzem a eficiência da alocação. O documento propõe enfrentar o modelo, levar o debate à sociedade e critica a reprodução do mesmo mecanismo em estados e municípios.
Flávio Bolsonaro, do PL, escolheu caminho oposto no tom. Seu programa fala em dar mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas e em priorizar a alocação em políticas do Plano Plurianual, sem criticar diretamente o modelo nem os valores destinados ao Legislativo, e até o momento o tema não apareceu em seus discursos. Ronaldo Caiado, do PSD, segue linha semelhante e promete um painel único que reúna autoria, objeto, município, convenente, beneficiário final, licitação, execução física e resultado de cada emenda. Já Renan Santos, do Missão, e Romeu Zema, do Novo, formam a ala mais crítica: defendem limitar as emendas a um percentual reduzido das despesas discricionárias e condicionar a destinação a critérios objetivos de interesse público. A campanha do Missão apoia uma Proposta de Emenda à Constituição apresentada pelos deputados Kim Kataguiri, Pedro Paulo e Julio Lopes, formulada pelo consultor Paulo Bijos.
Veículos de direita enfatizaram o descompasso entre discurso e prática. Registraram que o presidente prometeu o mesmo enfrentamento em 2022 e se tornou o chefe de Executivo que mais pagou emendas na história, e destacaram a resistência do Legislativo a qualquer mudança no modelo. Veículos de esquerda concentraram a cobertura na agenda de campanha e nas pautas sociais e trabalhistas do dia: Luiz Inácio Lula da Silva, em ato no bairro Lagoa Nova, em Natal, prometeu ampliar o acesso de famílias de baixa renda a exames e consultas e defendeu o fim da escala 6x1 e o fim da taxação sobre compras internacionais de pequeno valor. Nessa mesma cobertura, de registro factual e de centro, as agendas foram relatadas lado a lado e sem juízo de valor: Flávio Bolsonaro criticou o preço dos alimentos ao visitar um armazém solidário na zona leste de São Paulo, Ronaldo Caiado atacou os juros altos e o endividamento das famílias no bairro do Brás e defendeu a regulamentação das bets pelo Congresso Nacional, Hertz Dias, do PSTU, pediu a revogação das reformas Trabalhista e da Previdência e o fim da escala 6x1, e Samara Martins, da UP, associou aumento de renda e moradia ao enfrentamento da violência contra a mulher.
O registro factual das agendas também mostrou que o Tribunal Superior Eleitoral proibiu Pablo Marçal, do PRTB, de promover qualquer ação de campanha até decidir sobre sua situação eleitoral. O empresário havia registrado a candidatura graças a uma liminar judicial, depois de ser condenado à inelegibilidade com base na Lei da Ficha Limpa. Romeu Zema não divulgou agenda pública naquele dia, e o próximo debate entre os presidenciáveis está marcado para domingo.
O que ainda não se sabe é por qual instrumento cada proposta passaria. Nenhum dos planos detalha se a mudança viria por emenda constitucional, por lei complementar ou por acordo político, nem qual seria o percentual exato do teto defendido pelas candidaturas críticas. Também não há informação sobre como os líderes do Congresso Nacional reagiriam a uma redução efetiva do mecanismo, quanto foi pago em emendas na atual gestão em números, nem qual o prazo para o Tribunal Superior Eleitoral decidir sobre a candidatura suspensa.