A semana foi marcada por uma crise pública no Partido Liberal do Ceará, que opôs a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher, ao deputado estadual Alcides Fernandes, pré-candidato do partido ao Senado e pai do deputado federal André Fernandes. No centro da disputa estão dois temas: a aliança do PL cearense com o ex-ministro Ciro Gomes para as eleições de 2026 e a definição de quem ocupará a vaga do partido ao Senado.
O estopim foi um vídeo de quase trinta minutos publicado por Michelle Bolsonaro em seu Instagram em 24 de junho. Nele, a ex-primeira-dama critica a aliança com Ciro Gomes, classificando-a como uma traição de valores e um pragmatismo oportunista, e cobra apoio à candidatura da deputada Priscila Costa ao Senado. Michelle defende que a direita apoie no primeiro turno um candidato fiel aos valores conservadores, como Eduardo Girão ao governo do estado, e só considere uniões amplas no segundo turno. Dois dias depois, Alcides Fernandes respondeu em vídeo, afirmando que Michelle 'mal conhece um palmo' do Ceará e que a aliança com Ciro é uma necessidade pragmática, porque, segundo ele, a direita sozinha ainda não tem força para derrotar o PT no estado.
A cobertura de centro, como a do O POVO, tratou o caso no formato 'entenda as versões', expondo lado a lado as falas dos dois protagonistas. Há um ponto factual em disputa: Alcides sustenta que toda a articulação com Ciro Gomes teve o aval de Jair Bolsonaro, citando uma reunião de 29 de maio de 2025 em Fortaleza, com a bancada do PL, na qual o ex-presidente teria autorizado o apoio a Ciro ainda no primeiro turno e indicado o próprio Alcides ao Senado. Michelle, por sua vez, teria indicado que a articulação ocorreu sem o conhecimento de Bolsonaro, versão que Alcides contesta diretamente.
É no enquadramento que as coberturas divergem. Veículos de direita tendem a ler o episódio como uma tensão legítima entre coerência ideológica e pragmatismo eleitoral: de um lado, a defesa dos valores conservadores e a memória das ofensas de Ciro Gomes à família Bolsonaro; de outro, o argumento de que, num estado com forte presença de facções criminosas e governado pelo PT, a oposição precisa se unir para vencer. Já veículos de esquerda, como a Revista Fórum, enquadram o caso como uma 'implosão do bolsonarismo' e destacam o tom considerado machista da resposta de Alcides, que teria mandado Michelle 'lavar roupa suja em casa' e cuidar do marido em vez de opinar na política. Essa cobertura enfatiza ainda a dimensão de gênero da disputa e o menosprezo de Flávio Bolsonaro à madrasta, que confirmou presença em Fortaleza no dia 10 de julho para lançar a pré-candidatura de Alcides sem dar satisfação a ela.
O que ainda não se sabe é como Michelle Bolsonaro responderá às acusações de Alcides, já que, até o fechamento das matérias, ela não havia se manifestado publicamente sobre o novo vídeo. Também não há verificação independente sobre o teor exato da reunião de maio de 2025 nem sobre até onde Jair Bolsonaro, hoje inelegível, de fato autorizou a aliança com Ciro Gomes. O desfecho da disputa pela vaga ao Senado e a sorte da aliança com Ciro seguem em aberto.