A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou no dia 12 de agosto a suspensão temporária das transmissões ao vivo do Discord no Brasil, e a plataforma confirmou na segunda-feira, 17, que desativou os recursos de vídeo para usuários brasileiros. A medida cautelar alcança a funcionalidade de transmissão em servidores fechados, conhecida como Go Live, e também recursos equivalentes de transmissão e compartilhamento de vídeo, com exigência de mecanismos tecnicamente eficazes contra tentativas de burla. Os demais serviços do aplicativo, como troca de mensagens e integração com plataformas de terceiros, continuam funcionando.
No dia 18, um manifesto assinado por 67 organizações da sociedade civil classificou a decisão como proporcional e alinhada ao Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, em vigor desde março. Assinam o documento a Coalizão Direitos na Rede, o Instituto Alana, o Conselho Federal de Psicologia, a SaferNet Brasil, o Instituto Sou da Paz, o Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e a Associação de Pesquisadores e Formadores da Área da Criança e do Adolescente, entre outras.
A cobertura de centro relatou que a ANPD apresentou a medida como preventiva, motivada por evidências de que a empresa não adotou providências suficientes para reduzir riscos graves à integridade de crianças e adolescentes, e que a suspensão vale até a plataforma demonstrar a implementação e a efetividade de medidas técnicas, de segurança e de governança, com reativação dependente de autorização expressa e prévia da agência. Também registrou a fala da Secretária Nacional de Acesso à Justiça, Sheila de Carvalho, para quem o ECA Digital estabelece deveres de proteção que precisam ser cumpridos, e a avaliação do Ministério da Justiça e Segurança Pública de que grupos criminosos usaram comunidades do aplicativo para incentivar violência contra crianças, adolescentes, meninas e mulheres.
Veículos de esquerda destacaram o eixo da responsabilização das empresas. Segundo essa cobertura, o manifesto sustenta que cabe ao Discord provar que possui ferramentas capazes de detectar e interromper situações de risco antes de pedir a volta das transmissões, e defende uma política de proteção digital apoiada em prevenção e salvaguardas, em vez de concentrar as medidas na restrição de acesso de crianças e adolescentes às plataformas. Essa cobertura detalhou ainda que polícias civis de pelo menos oito estados apuram denúncias sobre o uso do Discord e do Telegram em crimes, entre eles recrutamento de menores para atos de crueldade contra animais, automutilação e induzimento ao suicídio, e citou a morte por suicídio de uma adolescente de 13 anos em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, em 22 de julho. Registrou também a queixa das signatárias contra a polarização política em torno do caso.
Nenhum veículo de direita cobriu o manifesto no material reunido. Pelos fatos disponíveis, a leitura provável desse campo se concentraria no poder de uma agência do Executivo para desligar um recurso de comunicação sem decisão judicial prévia, no precedente que a medida cria para outras plataformas e no ônus imposto às empresas de tecnologia, que precisam comprovar eficácia antes de recuperar o serviço. Nessa chave, o enfrentamento dos crimes citados caberia à investigação policial já em curso e à responsabilização de quem os praticou, e não à suspensão de uma funcionalidade usada também por adultos.
Segue sem definição quanto tempo a suspensão vai durar, quais provas técnicas a agência considerará suficientes para liberar as transmissões e que sanções se aplicam em caso de descumprimento. Também não há detalhamento público sobre uma resposta formal da empresa à agência nem sobre o estágio das investigações nos oito estados. Está marcado para 17 de setembro o prazo fixado pela ANPD para que plataformas com mais de 1 milhão de usuários crianças e adolescentes no Brasil divulguem relatórios semestrais sobre denúncias recebidas, ações de moderação e avaliação de riscos.