Os Estados Unidos confirmaram o envio de emissários ao Catar para conversas de alto nível sobre o programa e os compromissos do Irã, mas Teerã negou que existam negociações formais agendadas. A contradição entre as duas capitais, no centro da cobertura, reacende as dúvidas sobre o futuro de um cessar-fogo já fragilizado pela recente troca de ataques.
A cobertura de centro relatou que o presidente americano, Donald Trump, afirmou que as negociações ocorreriam em Doha na terça-feira e que seu enviado especial, Steve Witkoff, estava a caminho da capital catariana, segundo duas autoridades americanas. A Casa Branca, pela secretária de imprensa Karoline Leavitt, confirmou que Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente, viajariam para reuniões de alto nível, acompanhadas de discussões técnicas paralelas. Do lado iraniano, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, declarou que não há negociações marcadas com Washington para os próximos dias, embora uma delegação de especialistas iranianos vá a Doha ainda nesta semana. Para Baghaei, as conversas sobre um acordo definitivo só podem começar após o cumprimento de cláusulas específicas do memorando entre os dois países, entre elas as que tratam da venda de petróleo e da liberação de ativos congelados.
Há pontos em que as fontes convergem. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse que o país honrará seus compromissos se os EUA fizerem o mesmo, mencionando que metade dos US$ 12 bilhões em ativos iranianos congelados no Catar deveria ser devolvida a Teerã. Todos os relatos registram a pressão do prazo de 60 dias acordado após o fim de semana de ataques, e o impacto econômico no Estreito de Ormuz, por onde passou apenas uma fração do tráfego comercial habitual nas 24 horas anteriores, segundo dados da MarineTraffic.
As ênfases de cobertura, porém, divergem. Veículos de direita destacaram a versão de que o próprio Irã teria solicitado o encontro, lendo a negativa pública de Teerã como tática para ganhar tempo e preservar margem de barganha, e enfatizaram o respaldo americano à permanência de Israel no sul do Líbano até o desarmamento do Hezbollah como condição de segurança. Veículos de esquerda tenderiam a enquadrar o mesmo episódio como uma diplomacia conduzida sob coerção, com sanções e ativos congelados usados como instrumento de pressão e a presença militar israelense prolongando o sofrimento da população civil libanesa. A cobertura de centro manteve as duas versões lado a lado, sem aderir a nenhuma delas.
Nesse contexto entram ainda as falas do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, segundo quem Trump insistiu em vincular as guerras no Líbano e com o Irã durante as negociações de cessar-fogo, e a crítica do presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, aliado do Hezbollah, que afirmou que o acordo mediado pelos EUA "não será implementado". A remoção de minas no Estreito de Ormuz, segundo Teerã, ficará a cargo exclusivo do Irã, rebatendo a sugestão do presidente francês Emmanuel Macron de uma operação conjunta.
O que ainda não se sabe é se a reunião em Doha de fato acontecerá nos termos anunciados por Washington, quais autoridades iranianas participarão e se o prazo de 60 dias será cumprido. Também permanece em aberto se os ativos congelados serão liberados e em que ritmo, e se o cessar-fogo entre Israel e Hezbollah no sul do Líbano resistirá às tensões em curso.