O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende telefonar a Donald Trump na próxima semana para tratar do fim da guerra na Ucrânia. A declaração foi feita durante reunião com parlamentares do PSOL e da Rede no Palácio do Alvorada, encontro convocado para oficializar o apoio da federação à sua reeleição, e repetida em entrevistas concedidas no mesmo dia. Segundo o próprio presidente, a ligação seria o terceiro movimento de uma sequência: ele já havia conversado com o presidente da China, Xi Jinping, na semana anterior, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, na terça-feira. A ambos pediu que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU voltem a se sentar à mesa para negociar o fim do conflito. O governo russo divulgou nota agradecendo os esforços do brasileiro por uma solução política.
O gesto ocorre no momento mais tenso da relação entre Brasília e Washington em anos. O quadro descrito pelas matérias inclui a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, sanções a autoridades brasileiras, novas taxas a produtos do país e a indicação de um novo embaixador americano sem a consulta prévia sigilosa que é praxe diplomática. A resposta brasileira veio por nota do Palácio do Planalto, e não do Itamaraty, e incluiu a decisão de não reconhecer as credenciais do indicado como medida de reciprocidade. Esses fatos aparecem em toda a cobertura, sem divergência sobre o que aconteceu.
Veículos de esquerda destacaram o eixo da soberania. Nesse enquadramento, as sanções e a revogação de vistos são tentativa de interferência ideológica na eleição presidencial brasileira, e a fala do presidente de que ninguém se intrometerá de fora na disputa nacional é o centro da matéria. O mesmo campo valoriza o protagonismo do Brasil na busca por uma saída para a Ucrânia e reproduz a crítica presidencial ao Conselho de Segurança, descrito como órgão que perdeu a função. Também ganha relevo o episódio em que o presidente entregou pessoalmente a Trump um pedido de liberação de onze autoridades brasileiras barradas nos Estados Unidos, entre elas um ministro da Suprema Corte, sem que o pedido fosse atendido.
A cobertura de centro relatou os bastidores e o cálculo político dos dois lados. Nessa leitura, o descumprimento dos ritos diplomáticos na indicação do embaixador foi o estopim, e cada governo agiu conforme o próprio interesse eleitoral. A resposta ter saído do Planalto é apresentada como sinal deliberado de firmeza, embora interlocutores do presidente afirmem que não há intenção de intensificar o conflito: a estratégia seria manter a embaixadora em Washington, trabalhar pelos canais do Itamaraty e deixar o episódio esfriar. Essa cobertura também registra um efeito colateral politicamente conveniente ao governo, o de deslocar o noticiário da polêmica envolvendo o filho do presidente.
Do lado dos veículos de direita, a cobertura deste ciclo foi escassa, e o ângulo que costuma prevalecer nesse campo é o do custo prático da crise: taxas sobre exportações, autoridades sancionadas e a redução de canais de negociação com o maior parceiro comercial do país. Nessa chave, a resposta política emitida pelo Planalto em vez do Itamaraty sinaliza subordinação da diplomacia profissional ao calendário eleitoral, e a mediação brasileira na guerra da Ucrânia é vista com ceticismo diante da ausência de instrumentos concretos de pressão.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há data confirmada para o telefonema, nem confirmação do lado americano de que a conversa ocorrerá. Também não está definido se a pauta ficará restrita à Ucrânia ou se os atritos bilaterais acumulados entrarão na conversa, e participantes da reunião no Alvorada relataram que o presidente não deu essa indicação. Segue em aberto se o agrément ao novo embaixador americano será concedido depois das eleições, qual será o destino das sanções já aplicadas e como Washington responderá à recusa de credenciais. Nenhuma das reportagens traz a versão oficial do governo americano sobre os fatos.