A semana foi marcada por uma crise interna no Partido Liberal que opôs a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao enteado Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência da República. O atrito começou depois que Michelle publicou vídeos em que afirma ter sido maltratada e humilhada por Flávio, e que ele teria deixado subentendido não querer sua participação na campanha presidencial. A partir daí, o conflito se espalhou para diferentes núcleos do bolsonarismo e ganhou contornos cada vez mais ásperos nas redes sociais.
A cobertura de centro, conduzida pela Folhapress, relatou que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, antecipou seu retorno dos Estados Unidos, onde acompanhava a Copa do Mundo, para tentar conciliar os dois pessoalmente. Segundo parlamentares ouvidos, com Jair Bolsonaro preso, Valdemar enxerga Michelle como um dos principais ativos políticos do partido e sabe que precisa administrar bem a crise. A senadora Damares Alves, amiga próxima da ex-primeira-dama, também entrou na chamada turma do deixa-disso: prometeu ficar ao lado de Michelle, mas se disse disposta a mediar a relação e a contribuir com a campanha de Flávio, que a convidou para uma reunião de trabalho.
No centro da disputa está a divisão de poder e de recursos. Michelle reclama que suas candidatas têm sido rifadas e cobra o cumprimento da cota que reserva 30% do fundo eleitoral para mulheres. Ela afirma que o PL Mulher teria direito a indicar 17 candidatas às vagas de senador, mas conseguiu emplacar apenas três. O caso mais sensível é o da vereadora Priscila Costa, no Ceará, cuja vaga ao Senado é disputada pelo grupo do deputado André Fernandes.
É na cobertura das divergências que os enquadramentos se separam. Veículos de esquerda, como a Revista Fórum, destacaram que a briga desceu ao que chamaram de esgoto, com aliados de Eduardo Bolsonaro escalando o comentarista Paulo Figueiredo, condenado por desviar mais de R$ 33 milhões e alvo do Supremo Tribunal Federal, e o blogueiro Oswaldo Eustáquio, foragido na Espanha, para atacar Damares. Eustáquio chegou a acusar a senadora de ser amante de um pastor casado e de ser feminista, além de levantar suspeitas, sem comprovação, sobre o assessor jurídico dela. A esquerda enfatizou o teor misógino e moralista das ofensas e o fato de os ataques partirem de figuras com graves pendências judiciais, à distância, dos Estados Unidos.
Veículos de direita e a cobertura mais alinhada ao campo conservador enfatizaram outro ângulo: o peso eleitoral próprio de Michelle, que estruturou o PL Mulher nas 27 unidades da federação e puxou votos em 2024, e a tentativa legítima de Valdemar de preservar a unidade do partido para garantir a maior bancada da Câmara. Nesse enquadramento, a disputa por candidaturas é vista como competição natural numa sigla em expansão, e a amplificação das ofensas de bastidores apareceria como esforço de adversários para desgastar a pré-candidatura de Flávio.
O pano de fundo eleitoral pesa sobre todos os lados. Pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 10 apontou Lula com 39% e Flávio com 29% no primeiro turno. Considerando apenas o eleitorado feminino, a diferença cresce: Lula sobe para 41% e Flávio cai para 24%, o que ajuda a explicar a urgência da campanha em reconquistar mulheres e em pacificar a relação com Michelle.
O que ainda não se sabe é se a conciliação vai funcionar. Não está claro se Michelle comparecerá à reunião proposta por Flávio, se as candidaturas femininas reivindicadas por ela serão garantidas, nem qual será o desfecho das acusações pessoais lançadas por Eustáquio, que seguem sem apuração independente. A resposta dos atacados às ofensas e o efeito da crise sobre a campanha presidencial de Flávio também permanecem em aberto.