O ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, passou a se declarar branco no registro de candidatura ao Tribunal Superior Eleitoral para as eleições de 2026. A informação consta no sistema oficial da Justiça Eleitoral e representa uma virada em relação a 2022, quando o político havia informado ao TSE que se considerava pardo. A mudança reacende uma das principais polêmicas da campanha baiana daquele ano.
A autodeclaração de raça é obrigatória em eleições gerais desde 2014 e pode ser alterada a cada disputa, porque depende de uma identificação individual do candidato. Em 2022, ACM sustentou que mantinha a autodeclaração de pardo desde 2016 e chegou a ser intimado pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia para dar explicações, em ação movida por um então candidato a deputado federal. À época, ele apresentou documento de um instituto ligado à Secretaria de Segurança Pública em que era registrado como pardo e negou ter recorrido a bronzeamento artificial ou a qualquer artifício para obter vantagem.
A cobertura de centro relatou o episódio com paridade de fontes, apresentando tanto a mudança no registro quanto a defesa do candidato, além dos números de patrimônio e da disputa eleitoral. Segundo esses veículos, o patrimônio declarado saltou de R$ 41,7 milhões, em 2022, para R$ 84,9 milhões neste ano, alta de 103,5% atribuída a novos investimentos, aplicações financeiras, aportes em empresas, um imóvel e dois veículos. Questionado sobre o crescimento, o candidato não respondeu. Uma pesquisa Genial/Quaest recente apontou empate técnico com o atual governador, Jerônimo Rodrigues, que derrotou ACM no segundo turno de 2022.
Veículos de esquerda destacaram o peso do tema num estado onde 80,8% da população é negra, segundo o Censo de 2022. Pela metodologia do IBGE, usada em políticas públicas, pretos e pardos compõem a população negra. Nessa leitura, a autodeclaração de pardo em 2022 já havia sido vista por integrantes do movimento negro como oportunismo eleitoral, sobretudo diante das cotas e da regra que obriga os partidos a destinar 30% do fundo eleitoral a candidaturas de pessoas negras e mulheres. A reversão para branco agora, sem o mesmo incentivo, reforçaria a suspeita de uso instrumental da identidade racial, num momento em que a Justiça Eleitoral passou a fiscalizar autodeclarações consideradas incompatíveis.
Veículos de direita, ausentes desta cobertura específica, tenderiam a enfatizar a dimensão individual e subjetiva da autodeclaração, tratando a fiscalização estatal e a pressão de movimentos sociais como judicialização da identidade e perseguição política. Nessa ótica, valeria a palavra do próprio candidato, que afirmou se declarar conforme se sente e se vê, e o crescimento patrimonial apareceria como resultado de investimentos legítimos informados com transparência ao TSE.
O que ainda não se sabe é se a nova autodeclaração será questionada na Justiça, como ocorreu em 2022, e se o Ministério Público Federal abrirá apuração sobre eventual falsidade ideológica eleitoral. Também permanece sem resposta a explicação do candidato para o salto de mais de R$ 43 milhões em seu patrimônio declarado.