O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, endureceu o discurso de segurança pública no sábado, 22 de agosto, durante o ato que lançou a candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio de Janeiro, no Maracanãzinho. Diante de arquibancadas cheias, afirmou que, se eleito, “o bandido vai ser tirado de circulação, em pé ou deitado, porque quem tem que andar sem medo na rua somos nós”. Ao antecipar a acusação de radicalismo, respondeu do palanque: “Não gostou? Vota no defensor de bandido”. A chapa estadual tem a vereadora de Niterói Fernanda Louback como candidata a vice, e o mesmo ginásio havia sido usado pelo partido em 2022 para oficializar a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição.
A cobertura de centro relatou o discurso em detalhe e registrou o pacote de propostas. O candidato prometeu classificar o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e as milícias como organizações terroristas e declarar guerra aos que chamou de narcoterroristas a partir de janeiro de 2027, dando prazo até dezembro deste ano para que deixem o país. Anunciou pena inicial de oito anos para roubo de celular, trabalho obrigatório de condenados para custear a própria permanência no sistema prisional e indenizar vítimas, castração química para condenados por crimes sexuais, redução da maioridade penal para 14 anos em casos de estupro e uso de tecnologia para proteger mulheres sob medidas protetivas. Ao tratar da violência no Rio, disse que crianças estão sendo treinadas pelo tráfico para operar drones com explosivos. Fora da segurança, afirmou que manterá o Bolsa Família associado a qualificação profissional, citou o programa Minha Primeira Empresa, defendeu anistia geral aos acusados pelos atos de 8 de janeiro e disse que buscará libertar Jair Bolsonaro, para o que precisará de apoio no Senado.
Veículos de direita deram peso à leitura eleitoral do ato. Registraram que a campanha do Partido Liberal tem tido dificuldade para reunir multidões, com público estimado em cerca de 9 mil pessoas no ato de Copacabana no domingo anterior, segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo e do Cebrap, e que a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 21, reduziu de dez para seis pontos a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno, de 41% a 31% em julho para 39% a 33% agora. Essa cobertura detalhou ainda a tática de colar o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), primeiro colocado na disputa estadual com 41% contra 19% de Douglas Ruas, na figura do presidente Lula, com o bordão repetido no palanque e a retomada de apelidos e episódios ligados à Operação Lava Jato. Eduardo Paes não foi ouvido em nenhuma das reportagens.
As divergências de cobertura aparecem no contraditório. A cobertura de centro contrapôs o ato do Partido Liberal ao comício que o presidente Lula, candidato à reeleição, realizava no mesmo horário no Estádio Moça Bonita, em Bangu, onde defendeu retomar territórios controlados por organizações criminosas com prisões, e não com o que chamou de pirotecnia de matar 100 ou 200 criminosos, e citou a PEC da Segurança Pública, que voltou a andar no Senado na sexta-feira, 21, depois de mais de cinco meses parada. Essa mesma cobertura anotou que a classificação de facções como organizações terroristas é criticada por especialistas da área. Nenhum veículo de esquerda integra o conjunto reunido até aqui, de modo que a crítica ao aceno à letalidade policial e ao efeito das penas mais duras sobre a população mais pobre não recebeu voz própria na cobertura, aparecendo apenas de forma indireta, pela fala do adversário.
O que ainda não se sabe é como as promessas sairiam do palanque. As reportagens não informam por qual via legislativa o candidato pretende reduzir a maioridade penal, instituir a castração química ou criar a figura do grupo terrorista para facções, nem qual seria o custo do trabalho prisional obrigatório e de sua fiscalização. Também não detalham quais especialistas criticam a classificação das facções e com que argumentos, não trazem resposta de Eduardo Paes às acusações feitas do palanque e não apresentam margem de erro nem registro da pesquisa citada. Por fim, o rito e o prazo da PEC da Segurança Pública no Senado seguem indefinidos.