O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, gravou um vídeo em apoio à candidatura de Eduardo Cunha a deputado federal por Minas Gerais nas eleições de 2026. A gravação foi publicada nas redes sociais do ex-presidente da Câmara dos Deputados na quarta-feira, 26 de agosto. Na peça, o senador afirma que Cunha teve papel importante na história do país porque, nas palavras dele, “abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma”, e classifica a ex-presidente Dilma Rousseff como a pior presidente que o Brasil já teve.
Cunha agradeceu a manifestação e disse que faz campanha pelo senador em Minas Gerais e no restante do país. A declaração contraria a posição institucional do Republicanos, partido pelo qual ele concorre e que decidiu manter neutralidade na disputa presidencial. Segundo o próprio candidato, o partido está neutro, mas ele apoia Flávio Bolsonaro.
Toda a cobertura converge sobre a cronologia do personagem. Como presidente da Câmara, Cunha aceitou em dezembro de 2015 o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff; os deputados autorizaram a abertura do processo em abril de 2016 e o Senado decidiu pelo afastamento definitivo em 31 de agosto daquele ano. Em 12 de setembro de 2016, o plenário da Câmara cassou o mandato de Cunha por quebra de decoro parlamentar, por 450 votos a 10, sob a acusação de que ele havia mentido à CPI da Petrobras ao negar a existência de contas bancárias no exterior. Ele alegou perseguição política. Ainda em 2016, foi preso na Operação Lava Jato, acusado de receber propina em contratos da Petrobras, ficou em regime fechado até 2021 e teve sentenças anuladas pela Justiça em decisões de 2021 e 2023. Em 2021, cerca de R$ 12 milhões que estavam bloqueados na Suíça foram transferidos ao Brasil. Em 2022 ele disputou uma vaga no Legislativo por São Paulo, filiado ao PTB, e não se elegeu. Agora concentra a articulação no interior mineiro, onde expandiu a rede evangélica 89 Maravilha FM e passou a receber prefeitos, vereadores e outras lideranças em programas das emissoras. Uma investigação da Polícia Federal apontou a destinação de R$ 6,15 milhões em emendas parlamentares, por meio da liderança do Republicanos na Câmara, a 29 municípios de Minas Gerais.
A divergência aparece no peso dado a cada parte dessa cronologia. Veículos de esquerda enfatizaram a contradição entre o discurso de combate à corrupção e a aliança com um político expulso pelos próprios pares, sublinharam que o vídeo omite a cassação e as condenações, e um deles descreveu o processo de 2016 como golpe, além de tratar as emendas e as rádios como a engrenagem que sustenta a tentativa de retorno. A cobertura de centro relatou o episódio sem adjetivar: registrou as frases do senador entre aspas, o agradecimento de Cunha, a neutralidade formal do partido e o histórico judicial completo, incluindo as anulações e a alegação de perseguição política feita pelo próprio acusado. Veículos de direita não haviam publicado matéria sobre o caso até o fechamento desta análise, de modo que o argumento que esse campo costuma apresentar, o de que direitos políticos restabelecidos pela Justiça tornam a candidatura legítima e a decisão cabe ao eleitor, não aparece em nenhuma reportagem do conjunto.
Alguns pontos seguem em aberto. Não há registro de posição oficial do Republicanos sobre a quebra pública da neutralidade anunciada por um de seus candidatos, nem manifestação atual de Cunha a respeito da investigação sobre as emendas. Nenhuma das reportagens explica os fundamentos jurídicos que levaram à anulação das sentenças em 2021 e 2023, informação que muda o alcance do episódio conforme a leitura. Também há divergência entre as fontes sobre a disputa de 2022: parte da cobertura afirma que Cunha concorreu a deputado federal por São Paulo, parte diz que a vaga era de deputado estadual.