O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal do Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República, aparece em documentos analisados pela Polícia Federal como usuário master de uma conta bancária ligada ao grupo empresarial do advogado Willer Tomaz, amigo pessoal dele. O grupo controla, por meio de empresas sediadas em Portugal, a marca de apostas online Best Bet. A Polícia Federal levantou a hipótese de que o senador tivesse participação societária oculta no negócio e encaminhou o material ao Supremo Tribunal Federal, onde o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator.
Até o momento, apenas um veículo do conjunto analisado cobriu o caso em profundidade, relatando os detalhes revelados por reportagem publicada em 20 de outubro. Segundo esse relato, duas empresas registradas na Ilha da Madeira, a Cathedral Holdings e a Alcazar Holdings, têm o mesmo dono formal, o mesmo administrador e o mesmo endereço, em Funchal. A Cathedral foi criada em janeiro de 2023 e, no mês seguinte, passou a controlar a Rede Loto, empresa brasileira responsável pela Best Bet, que obteve autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro. Nos arquivos eletrônicos do advogado, a Polícia Federal encontrou o cadastro de Flávio como um dos dois únicos usuários master de uma conta da Alcazar no banco Santander. O outro era o próprio Willer Tomaz. Esse tipo de cadastro permite consultar saldos, ver movimentações e autorizar operações.
A cobertura também cita um e-mail de 22 de maio de 2025 em que uma funcionária do advogado pediu ao banco a retirada do senador do cadastro, sem explicar o motivo. No dia seguinte, os dois viajaram com familiares de Portugal para a França em avião executivo contratado em nome da Cathedral Holdings. A apuração da Polícia Federal nasceu de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado e empresas do setor de apostas. Em relatório, os investigadores afirmam que contas controladas por ele poderiam funcionar como ponto de concentração e redistribuição de recursos em favor de terceiros.
O texto ressalva que o cadastro bancário não comprova que Flávio seja dono da Alcazar ou da Best Bet. O senador nega ter mantido conta com Willer Tomaz como usuário master e, procurado, não respondeu se era sócio da casa de apostas. A defesa do advogado afirma que todas as empresas são regulares e declaradas, que não há sócios ocultos e que a Rede Loto nunca lançou operação de apostas. Diz ainda que as viagens foram pagas pessoalmente por ele e que a relação entre os dois é de amizade antiga entre famílias. A assessoria do candidato contesta que haja inquérito aberto e afirma que não houve manifestação da Procuradoria-Geral da República nem decisão judicial. As defesas criticaram a divulgação de peças sigilosas a seis dias do segundo turno.
O caso ganhou peso na campanha porque, no debate de 18 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desafiou Flávio a autorizar a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Como só um veículo tratou do tema no conjunto analisado, não é possível comparar como diferentes linhas editoriais enquadraram a suspeita.
Ainda não se sabe se o ministro relator vai converter o material em inquérito, qual será a posição da Procuradoria-Geral da República, nem por que o nome do senador foi incluído e depois retirado do cadastro da conta. Também não há informação sobre a origem e o destino dos recursos que circularam entre as empresas.