O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, encontrou-se na manhã de segunda-feira com o presidente da Argentina, Javier Milei, na Quinta de Olivos, residência oficial do mandatário em Buenos Aires. O compromisso não constava da agenda oficial do argentino, mas foi lido como um aceno do ultraliberal ao senador, que deve enfrentar o presidente Lula nas urnas em outubro. Após o encontro, Milei repostou uma foto e afirmou que a chamada 'onda azul', em referência às vitórias de candidatos de direita na América do Sul, chegará ao Brasil com Flávio.
A cobertura de centro relatou que, um dia antes, o senador já havia rasgado elogios ao governo argentino em um evento na capital. Segundo assessores, Flávio reforçou no encontro a importância de impor uma derrota ampla aos governos de esquerda na região. Em discurso, Milei citou as recentes derrotas da esquerda no Chile, na Colômbia e no Peru e disse esperar o mesmo desfecho no Brasil em outubro. Esses fatos aparecem em todas as fontes do cluster e formam o núcleo da história: o aceno internacional como vitrine eleitoral.
Os veículos convergem também sobre a agenda econômica apresentada pelo pré-candidato. Em transmissão ao vivo direcionada ao eleitorado feminino, Flávio afirmou que as brasileiras sustentam mais de 70% dos lares e prometeu um 'tesouraço' nos impostos, além de reduzir a máquina pública e promover uma reforma tributária que aliviaria o bolso das famílias. Ele tratou a pauta como econômica, e não ideológica, e mencionou o endividamento das famílias brasileiras. Em outro evento do PL, em Goiânia, o senador disse orar para ter uma vice mulher 'qualificada', e dirigentes do partido avaliam que uma candidata mulher pode ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.
É na interpretação que as coberturas divergem. Veículos de direita enfatizaram a 'onda azul' como tendência regional vitoriosa e apresentaram a agenda de corte de impostos e de redução do Estado como alívio concreto para as famílias, tratando o recente atrito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como uma 'página virada' em nome da união do campo conservador. Numa leitura à esquerda, o mesmo encontro aparece como importação de um ajuste ultraliberal que, na Argentina, cortou gastos sociais, e o aceno ao eleitorado feminino soa contraditório diante do atrito com Michelle e das falas do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres votam mal. A cobertura de centro registrou esses elementos de forma descritiva, atribuindo as falas às fontes e situando a disputa no quadro do segundo turno, em que pesquisa BTG/Nexus mostrou Lula e Flávio empatados em 47% a 44%.
O que ainda não se sabe é como o eleitorado feminino reagirá à aproximação do senador após a crise com Michelle, qual será o nome efetivo da vice na chapa do PL e em que medida o endosso de Milei se converte em capital eleitoral no Brasil. Também segue em aberto o detalhamento da proposta tributária prometida e o impacto concreto do 'tesouraço' anunciado.