O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou, nesta sexta-feira, durante o 3º Seminário Nacional de Comunicação do PL, no Rio de Janeiro, que viajaria aos Estados Unidos para defender o Pix e participar de uma audiência pública do USTR, o Escritório do Representante de Comércio norte-americano. A sessão, marcada para 7 de julho em Washington, integra uma investigação comercial com base na Seção 301 que pode resultar em tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Flávio se inscreveu para falar por cerca de cinco minutos e pedir a suspensão do tarifaço.
Antes da viagem, o senador enviou ao USTR um documento de 86 páginas propondo um mecanismo de suspensão automática das medidas por 180 dias, prorrogável por mais 90, enquanto Brasil e Estados Unidos negociariam uma solução. No mesmo texto, defendeu que o Pix, sistema de pagamentos lançado pelo Banco Central em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, não seja conectado a arranjos de liquidação 'não ocidentais', numa referência à China. A cobertura de centro, de veículos como CNN Brasil, g1, Folha e Poder360, relatou os fatos com paridade: reproduziu a fala de Flávio, detalhou o teor técnico do dossiê e registrou que o próprio documento admite que a aplicação das tarifas poderia dar uma 'vitória política' ao presidente Lula. A Folha e o g1 observaram ainda que o documento não esclarece como se daria, na prática, o veto do Pix a sistemas estrangeiros, e lembraram que o Fed americano opera o FedNow, ferramenta semelhante.
Veículos de direita, como Veja e Crusoé, enfatizaram a atuação de Flávio como defensor do Pix, apresentado como conquista da gestão Bolsonaro, e dos interesses das empresas brasileiras diante de um governo que, nas palavras do senador, 'está se lixando' para os exportadores. Essa cobertura destacou a proposta de negociação e o paralelo com o FedNow, mas também expôs tensões internas do campo: a Crusoé descreveu a disputa entre a ala ideológica do PL, influenciada por Eduardo Bolsonaro, que quer uma campanha mais 'raiz', e a ala moderada, ligada a Michelle Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, que defende um 'Bolsonaro moderado' para atrair o Centro. Parlamentares do Centrão teriam manifestado receio de que aliados radicais comprometam a governabilidade de um eventual governo Flávio.
Veículos de esquerda, como a Revista Fórum, adotaram ângulo crítico: com base em levantamento do jornal O Globo, ressaltaram que Flávio já foi mais vezes aos Estados Unidos em 2026 do que a dez estados do Norte e Nordeste, regiões decisivas em que o bolsonarismo enfrenta mais dificuldade. Essa cobertura leu a agenda internacional como subordinação da política externa a Washington e priorização do exterior em detrimento do Brasil. O presidente Lula reagiu na mesma linha: classificou o pedido de adiamento como 'mais uma atitude de traidores da pátria', afirmou que o Brasil 'não está à venda' e acusou a família Bolsonaro de 'entreguismo' e de tentar 'entregar o Pix a interesses estrangeiros'.
O governo brasileiro acompanha a movimentação com desconfiança e não enviará representantes à audiência, avaliando que a sessão é de interesse dos setores privado e civil. Interlocutores do Planalto consideram que os Estados Unidos dificilmente recuarão e que o senador 'dá um tiro no pé' ao se colocar como negociador. A Confederação Nacional da Indústria será representada pelo embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC. Ainda não se sabe se o USTR acatará a proposta de suspensão, qual será a decisão final de Donald Trump, cujo prazo legal se encerra em 15 de julho, nem como funcionaria, na prática, o compromisso de não conectar o Pix a sistemas estrangeiros.