Um estudo do economista Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper e ex-chefe da assessoria econômica do Ministério da Fazenda na gestão Temer, voltou ao centro do debate fiscal brasileiro. Segundo o levantamento, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou R$ 187,2 bilhões em benefícios e medidas econômicas entre janeiro e junho de 2026. Desse total, cerca de R$ 176,7 bilhões, o equivalente a 94,3%, ficam fora dos limites de crescimento de despesas previstos no arcabouço fiscal aprovado em 2023.
O número que dá nome à história tem desdobramentos. Parte das medidas, no valor de R$ 118,7 bilhões ou 63% do pacote, escapa até mesmo da meta de superávit primário estabelecida pelo próprio arcabouço. Para 2026, essa meta é de superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto, com margem de tolerância que admite resultado neutro.
Todos os lados da cobertura convergem nos fatos centrais. Há acordo sobre os valores, sobre a autoria do estudo e sobre os mecanismos usados pelo governo para viabilizar os gastos: empréstimos por meio de bancos públicos, uso de fundos garantidores, redução de impostos e créditos extraordinários. A cobertura de centro, representada por veículos regionais, relatou esses números de forma factual, explicando os conceitos de superávit, déficit e arcabouço, e lembrando que o regime de 2023 substituiu o teto de gastos do governo Temer com regras menos rígidas, baseadas na evolução da arrecadação. Também há consenso sobre o quadro da dívida: a dívida pública bruta está em 80,4% do PIB, com projeções de mercado que apontam até 83% no fim do ano.
É no enquadramento que os lados se separam. Veículos de direita, que dominam esta cobertura, trataram o conjunto de medidas como um 'pacote de bondades' eleitoral e reproduziram a avaliação de Mendes de que se trata de uma 'desmoralização total' das regras fiscais. Para essa leitura, os mecanismos seriam 'instrumentos de omissão' desenhados para gastar sem aparecer na conta, em ano de eleição, repetindo o roteiro fiscal que precedeu a crise no segundo mandato de Dilma Rousseff. Esses veículos enfatizaram ainda o contraste com o superávit primário de R$ 54,1 bilhões registrado em 2022, no governo Bolsonaro, e a relação entre o excesso de gastos, a alta de juros e a inflação.
A leitura de esquerda está ausente desta cobertura, e essa ausência é parte da história. Faltam nas matérias a voz do governo e a defesa de que programas como Gás do Povo, ampliação do Minha Casa Minha Vida, Desenrola e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais são políticas sociais de proteção a famílias de baixa renda, e não meras benesses. Sob esse prisma, o crédito via bancos públicos e o uso de fundos seriam instrumentos legítimos de política econômica.
O que ainda não se sabe é como o governo responderá tecnicamente ao estudo, qual será o resultado fiscal efetivo de 2026 e se as projeções de dívida acima de 80% do PIB se confirmarão. Tampouco há, nas matérias analisadas, uma avaliação independente que confirme ou conteste, ponto a ponto, a metodologia usada por Mendes para classificar cada medida como dentro ou fora das regras.