Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos indicados ao Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, ampliaram seu alinhamento nos últimos meses. A convergência, que oscilou desde as indicações, ganhou força em dois eixos: a gestão de Kassio à frente do Tribunal Superior Eleitoral, que tem recebido respaldo de Mendonça, e as investigações sobre as fraudes do Banco Master, em que Kassio deu votos decisivos favoráveis a Mendonça, o relator do caso.
A cobertura de centro relatou que, nos bastidores do Supremo, a avaliação é de que os dois devem manter posições convergentes ao menos até o fim das eleições deste ano. Depois disso, há dúvidas sobre a postura de Kassio no caso Master. Ex-advogado, o ministro é visto como mais aberto aos argumentos das defesas e tem sido pressionado por uma ala da corte que defende um freio de arrumação na condução do processo. Seu voto pode ser decisivo: na Segunda Turma, onde os processos do Master tramitam, Dias Toffoli se declarou suspeito, Luiz Fux tem acompanhado Mendonça e Gilmar Mendes sinalizou que pode se tornar um contraponto ao relator. Com apenas quatro ministros julgando, empates em matéria penal beneficiam os investigados.
Os três lados da cobertura convergem no essencial: o caso Master é um marco de crimes financeiros de alcance sistêmico, com impacto sobre o Fundo Garantidor de Créditos, e Mendonça segue como relator central, tanto que anunciou que continuará despachando sobre o Master e as fraudes ao INSS durante o recesso do Judiciário, iniciado em 2 de julho. Alexandre de Moraes também manterá atividades, em revezamento com o presidente Edson Fachin na análise dos casos urgentes.
As ênfases, porém, divergem. Veículos de direita destacaram a diligência de Mendonça, que mantém a rotina de trabalho mesmo no plantão do recesso, e o encaminhamento à Procuradoria-Geral da República de um pedido de apuração sobre repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. Nessa leitura, o foco recai sobre a responsabilização dos fraudadores e a segurança jurídica, com atenção ao devido processo legal. Veículos de esquerda tendem a enfatizar o risco de dois indicados de Bolsonaro operarem de forma coordenada no comando do sistema eleitoral e das investigações financeiras, o que levantaria dúvidas sobre a independência do tribunal em ano de eleição, e a defender um Estado regulador mais forte diante das fragilidades de fiscalização expostas pelo caso.
Essa fragilidade aparece em números citados na cobertura de centro: entre 2015 e 2024, as comunicações de operações suspeitas ao Coaf saltaram de cerca de 296 mil para mais de 2,5 milhões, alta de 766%. Só nos cinco primeiros meses de 2026, a Polícia Federal instaurou mais de 400 inquéritos por lavagem de dinheiro. Analistas jurídicos apontam que estruturas como as do Master e da gestora Reag exploraram lacunas de supervisão por anos, ainda que sob certificações da Anbima e fiscalização da CVM, e defendem integração entre CVM, Banco Central, Coaf e Ministério Público.
O que ainda não se sabe é qual será a posição de Kassio no caso Master após as eleições, se Gilmar Mendes de fato consolidará um contraponto na Segunda Turma e qual o desfecho do pedido de investigação sobre o filme Dark Horse na PGR, cujo prazo foi ampliado pelo recesso.