O governo central registrou déficit primário de R$ 53 bilhões em maio de 2026. O número consta do Relatório do Tesouro Nacional (RTN), divulgado nesta segunda-feira, e reúne as contas do Tesouro, do Banco Central e da Previdência Social. O resultado foi pior que o déficit de R$ 40,25 bilhões verificado no mesmo mês de 2025.
A cobertura de centro relatou os dados de forma factual: o déficit de maio ficou em R$ 53,257 bilhões, em linha com o esperado por economistas ouvidos pela Reuters, que projetavam um rombo em torno de R$ 53 bilhões. No acumulado de janeiro a maio, o governo central soma déficit de R$ 44,4 bilhões, ante R$ 32,9 bilhões no mesmo período de 2025. Em 12 meses, o resultado equivale a um déficit de R$ 142,3 bilhões, ou 1,06% do Produto Interno Bruto.
Há pontos em que todos os lados convergem. Os números do Tesouro mostram que tanto a receita quanto a despesa cresceram em termos reais. A receita líquida subiu 5,5% no mês, puxada por imposto de renda, Cofins, IOF e arrecadação para a Previdência. A despesa total, porém, avançou 9,4%, com destaque para benefícios previdenciários, abono e seguro-desemprego e, sobretudo, gastos discricionários, que cresceram R$ 16,7 bilhões. A meta fiscal de 2026 prevê superávit de 0,25% do PIB, o equivalente a R$ 34 bilhões, com uma banda de tolerância que considera a meta cumprida em qualquer resultado entre zero e superávit de R$ 68 bilhões.
É na interpretação desses dados que as coberturas se separam. Veículos de esquerda tendem a enfatizar que a arrecadação cresceu de forma consistente e que boa parte do aumento de despesa veio de benefícios sociais, como aposentadorias e seguro-desemprego, que protegem trabalhadores e os mais vulneráveis em um momento de aperto. Sob essa ótica, o déficit deve ser lido no contexto de garantia de direitos e investimento público, e não apenas como rombo a ser cortado.
Veículos de direita, por sua vez, enfatizam o ritmo da despesa. Para essa leitura, a alta de 9,4% nos gastos em termos reais, muito acima do crescimento da receita, e o salto dos gastos discricionários revelam falta de disciplina fiscal. O resultado pior que o de 2025 acende alerta sobre a viabilidade da meta de superávit de 0,25% do PIB e sobre a pressão de um gasto persistentemente acima da arrecadação sobre a dívida pública e os juros.
O que ainda não se sabe é como o governo pretende reverter a trajetória nos próximos meses para cumprir a meta de 2026, e qual será a reação de economistas e do mercado ao longo do segundo semestre. As matérias do cluster trazem os números do RTN, mas não detalham medidas de ajuste nem projeções oficiais atualizadas para o fechamento do ano.