O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, defendeu nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, que a Polícia Federal e o Ministério Público investiguem sem qualquer interferência política as suspeitas que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência da República. Na mesma entrevista, o ex-ministro da Fazenda classificou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência como um grave risco institucional e afirmou não conceber a hipótese de ele assumir o cargo.
As declarações foram dadas em sabatina promovida por um consórcio de veículos de imprensa, a primeira de uma série com os candidatos ao governo paulista. O governador Tarcísio de Freitas, que tenta a reeleição, foi escalado para o dia seguinte, no mesmo horário. Os convites, segundo a cobertura, tomaram como base o desempenho dos candidatos em pesquisa divulgada em 29 de julho.
Toda a cobertura converge sobre o conteúdo das falas. Haddad disse ser favorável a passar a régua em quem quer que seja, com a frase de que não quer saber partido, religião ou time de futebol de investigado, e que isso inclui o chefe de gabinete e o filho do presidente. Afirmou também nunca ter visto Lula mexer um dedo para proteger amigo, filho ou parente, e sustentou que a Polícia Federal e o Ministério Público tiveram liberdade integral durante o mandato. Ao mesmo tempo, ressalvou que ainda é preciso apurar se houve de fato irregularidade. Há convergência igualmente sobre o contexto: a apuração nasceu das investigações sobre fraudes contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social e examina a proximidade dos dois com a lobista Roberta Luchsinger. Os investigados negam irregularidades.
A diferença aparece no recorte. A cobertura de centro tratou os dois temas em conjunto e acrescentou verificação própria: reproduziu o dado do Banco Central de que a relação entre dívida e Produto Interno Bruto subiu de 73,5% para 81,9% durante a gestão do candidato na Fazenda, registrou a composição das coligações adversárias, recuperou o histórico das posições do governador sobre câmeras corporais nas fardas policiais e detalhou a cronologia do caso, incluindo pagamentos de R$ 1,5 milhão à lobista e a saída do ex-chefe de gabinete do cargo em julho de 2026. Veículos de esquerda tomaram outro caminho: concentraram o texto no alerta contra a extrema direita, converteram a acusação do candidato em constatação do próprio título e deixaram a investigação sobre o filho do presidente inteiramente fora da matéria, além de errar a data do episódio no primeiro parágrafo. Nenhum veículo de direita integrou o conjunto analisado; pelos fatos disponíveis, a leitura provável desse campo colocaria a apuração no centro da história, cobraria coerência entre o discurso de rigor e a proximidade dos investigados com o poder, e usaria a trajetória da dívida pública como resposta à defesa que o candidato fez do próprio desempenho no Ministério da Fazenda.
A sabatina também tratou de temas estaduais. Haddad comparou a disputa com Tarcísio de Freitas a uma luta de Davi contra Golias, disse enfrentar um bloco formado por Centrão e bolsonarismo, prometeu revisar benefícios fiscais CNPJ por CNPJ, propôs uma agência antifacção reunindo polícias, órgãos federais e Ministério Público, defendeu a volta das câmeras corporais e afirmou que a reestatização da Sabesp, apesar do clamor que diz existir, é um imbróglio jurídico de solução difícil.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhum texto informa em que fase está a apuração da Polícia Federal, se houve indiciamento ou se as suspeitas de tráfico de influência serão formalizadas. Não há resposta do senador Flávio Bolsonaro à acusação de risco institucional, nem manifestação do governador paulista às críticas sobre segurança, saúde e finanças estaduais. Também segue em aberto se a disputa paulista se decide em primeiro turno e que efeito isso teria sobre a corrida presidencial, ponto em que o próprio candidato disse não enxergar correlação direta.