Um levantamento do Reglab, Centro de Estratégia e Regulação, projeta que a inteligência artificial pode acrescentar R$ 986,7 bilhões à economia brasileira entre 2027 e 2030. O valor, calculado em valor presente, equivale a 7,6% do Produto Interno Bruto estimado para 2026 e corresponde a um acréscimo de 2,77% no acumulado dos quatro anos, ou média de 0,69 ponto percentual ao ano. O estudo foi encomendado pela OpenAI e adapta ao Brasil a metodologia publicada em 2025 pelo economista Daron Acemoglu, do Massachusetts Institute of Technology, que estimou o efeito da tecnologia sobre a economia dos Estados Unidos.
O cálculo se apoia em dois canais. O primeiro é o do trabalho: ferramentas de linguagem, análise de dados e geração de código elevam a produtividade de parte da força de trabalho, e respondem por 65% do impacto projetado. O segundo é o do capital: máquinas, robôs e sensores tornam cada unidade de equipamento mais produtiva, e respondem pelos 35% restantes. Entre os 12 setores avaliados, a indústria de transformação concentra o maior ganho, R$ 264,2 bilhões, seguida por outras atividades de serviços, com R$ 165,4 bilhões, e pelo comércio, com R$ 131,2 bilhões. Na agropecuária, 92% dos R$ 48,2 bilhões estimados viriam de equipamentos inteligentes, drones e sensores de precisão.
As coberturas convergem em pontos centrais. Ambas registram que a adoção seria gradual e mais lenta do que em economias avançadas, por causa do custo do crédito, das diferenças entre empresas e das lacunas de qualificação e infraestrutura. Ambas reproduzem a estimativa de que, em 2030, cerca de dois terços do potencial ligado ao trabalho e ao capital já teriam se materializado. E ambas listam as condições apresentadas pelo próprio relatório para que o ganho ocorra: requalificação profissional, conectividade rural, apoio a pequenas empresas, acesso a crédito e regras previsíveis.
A divergência aparece no enquadramento e no que cada cobertura escolheu revelar. Veículos de direita enfatizaram a dimensão de crescimento e de produtividade, apresentando a tecnologia como responsável por algo entre um quarto e um terço de toda a expansão econômica esperada no período, e destacaram os obstáculos do ambiente de negócios, entre eles a Selic de 13% ao ano e a possibilidade de uma regulação fragmentada reduzir o impacto. Nessa cobertura, porém, não se informa ao leitor que o estudo foi pago pela OpenAI, empresa que vende a tecnologia avaliada. A cobertura de centro trouxe a encomenda logo no título, explicou que o Reglab teve de cruzar uma base americana de tarefas por profissão com as ocupações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, e advertiu que essa transposição pode criar pontos cegos, já que a mesma profissão reúne tarefas e condições de trabalho diferentes nos dois países. Foi também a cobertura de centro que contrapôs o resultado a estimativas anteriores: em 2024, o Fundo Monetário Internacional projetou produção cerca de 5% maior no longo prazo, e a consultoria PwC calculou um intervalo de 0,6% a 13% até 2035.
Até o momento, veículos de esquerda não haviam publicado sobre o levantamento, e o ângulo que costuma organizar essa cobertura aparece apenas de forma indireta no material disponível: o papel do Estado como condição do ganho, com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e seus R$ 23 bilhões previstos até 2028 para saúde, educação e gestão pública, e o efeito da automação sobre quem trabalha.
O que ainda não se sabe é considerável. O estudo não diz qual profissão específica ganha ou perde, porque o resultado sai por setor e não por ocupação. Não quantifica quanto o país deixa de ganhar por adotar a tecnologia com atraso, ainda que aponte defasagem equivalente à dos Estados Unidos dois anos atrás. Não distribui o ganho entre trabalhadores e detentores de capital. E, por construção do modelo, nenhum dos 12 setores aparece com impacto nulo ou negativo, característica que o próprio diretor-executivo do Reglab atribui à metodologia, e não a um retrato de que toda a economia será beneficiada na mesma proporção.