O IBGE divulgou nesta semana, por meio da PNAD Contínua sobre Tecnologia da Informação e Comunicação, que a posse de celular entre crianças e adolescentes de 10 a 13 anos caiu pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2016. O percentual passou de 56,7% em 2024 para 55,2% em 2025. Foi o único dos oito grupos etários analisados a registrar retração, num cenário em que o acesso digital continua crescendo no país: 90,5% da população usava internet em 2025, contra 89,2% no ano anterior.
O uso da internet nesse mesmo grupo de crianças também teve leve recuo, de 84,9% para 84,4%, movimento que o instituto classificou como estabilidade relativa. Já entre os idosos de 60 anos ou mais o quadro foi oposto: a posse de celular subiu de 78,3% para 80,3%, a maior variação positiva entre todas as faixas. O analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes atribuiu essa alta à maior presença da internet no cotidiano, já que o celular é o principal equipamento de acesso à rede no Brasil.
Há convergência entre as coberturas sobre os fatos centrais. Todos os veículos destacaram os mesmos números da PNAD, o caráter inédito da queda entre crianças e o fato de a preocupação com privacidade e segurança ter sido o principal motivo apontado pelas famílias para não dar celular aos menores, citada por 32% dos entrevistados. Também há consenso ao mencionar a lei que proíbe o uso de celular em escolas, sancionada em janeiro de 2025, como um dos possíveis fatores por trás da mudança de comportamento.
A cobertura de centro, representada pelo despacho da Folhapress, ateve-se aos dados e às falas do próprio IBGE, apresentando a série histórica e as comparações entre faixas etárias sem enquadramento valorativo. Veículos de esquerda, por sua vez, enfatizaram os riscos das telas para a saúde mental infantil, como ansiedade, sintomas depressivos e alterações no sono, e trataram a queda como um avanço na proteção coletiva à infância, sublinhando o papel do Estado e o exemplo da Austrália, que proibiu o acesso de menores de 16 anos às principais redes sociais e previu multas milionárias às plataformas.
Esse é o ponto em que as leituras poderiam divergir. Uma cobertura mais à direita tenderia a enfatizar que o recuo reflete sobretudo escolhas privadas e a responsabilidade dos pais, e não a imposição regulatória, e a questionar até onde governos devem intervir em decisões familiares. A ênfase mudaria da regulação estatal para a autonomia das famílias diante da informação hoje disponível sobre riscos digitais.
O que ainda não se sabe é se a queda observada em 2025 é o início de uma tendência duradoura ou apenas uma oscilação pontual, já que os índices seguem elevados e bem acima do patamar pré-pandemia, quando menos da metade das crianças de 10 a 13 anos tinha celular. Também não há, nas reportagens, avaliação independente do efeito concreto da lei de proibição nas escolas nem dados que isolem seu impacto de outros fatores, como o próprio debate público sobre o tema.