O PT oficializou no domingo, 2 de agosto de 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo, a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, com Geraldo Alckmin (PSB) mantido como candidato a vice-presidente. Aos 80 anos, o petista disputa a Presidência pela oitava vez e busca o quarto mandato. A chapa é sustentada por uma aliança de sete partidos do campo progressista, sem a adesão formal da centro-direita que marcou a frente ampla de 2022. O início oficial da campanha foi marcado para 16 de agosto, em ato no estádio de São Bernardo do Campo associado às grandes assembleias de metalúrgicos do fim dos anos 1970.
O episódio que dominou a repercussão do evento não estava previsto no roteiro. Ao constatar que nenhuma mulher havia sido incluída entre os oradores, o presidente fez uma autocrítica no palco e disse não ser possível que o partido tivesse esquecido de colocar uma mulher para falar no principal evento da campanha. Em seguida, chamou ao microfone a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, para discursar em nome do Pacto Contra o Feminicídio. Ela falou por cerca de três minutos, saudou apenas as mulheres presentes e afirmou que serão elas a decidir a eleição. Em outro trecho, quando o presidente defendia a distribuição do implante contraceptivo Implanon pelo Sistema Único de Saúde para reduzir a gravidez na adolescência, Janja o interrompeu para dizer que a mulher deve ter filho quando quiser; ele repetiu a frase e acrescentou a defesa do planejamento familiar.
A cobertura de centro relatou o evento sobretudo como peça de estratégia eleitoral. Registrou a escolha de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, como forma de impulsionar também a candidatura ao governo estadual; a decisão de não anunciar promessas que pudessem ser lidas como pressão fiscal; e o quadro de disputa apertada. Pesquisa divulgada em 24 de julho apontou 40% das intenções de voto para o presidente contra 32% do senador Flávio Bolsonaro no primeiro turno, e 48% a 43% em eventual segundo turno, com margem de erro de dois pontos percentuais. O mesmo levantamento mostrou aprovação de 49% e desaprovação de 48% para o governo, além de rejeição de 46% ao presidente e de 48% ao adversário. Essa cobertura também anotou que a campanha terá cerca de 20% a mais de tempo de televisão e de fundo eleitoral que a do principal concorrente.
Veículos de direita deslocaram o eixo do evento para o atrito e para o flanco jurídico. O recorte editorial pôs em primeiro plano a interrupção do presidente pela primeira-dama e o debate sobre contracepção, deixando em segundo plano a oficialização da chapa. No mesmo campo, ganhou destaque a representação apresentada à Procuradoria-Geral da República por um deputado federal do PL, que alega propaganda eleitoral antecipada em pedidos explícitos de voto feitos pelo presidente em convenção na Bahia, antes de 16 de agosto. Nessa leitura, o cumprimento do calendário eleitoral deve valer igualmente para todos os candidatos, independentemente do cargo que ocupem.
A leitura de esquerda do mesmo material inverte o sinal do episódio: a autocrítica sobre a falta de mulheres no roteiro é apresentada como reconhecimento de uma dívida de representação, e a correção sobre o implante contraceptivo, como afirmação de autonomia reprodutiva, não como constrangimento. Nesse enquadramento, a representação à PGR aparece como tentativa de judicializar a disputa e de restringir a fala política em convenção partidária.
Os três recortes convergem nos fatos centrais: a chapa foi confirmada, o improviso ocorreu e o eleitorado feminino, que representa 52,8% do total, é peça-chave da disputa. O que ainda não se sabe é como a Procuradoria-Geral da República tratará a representação, se haverá alguma penalidade na Justiça Eleitoral, qual será o conteúdo do programa de governo, mantido reservado pela coordenação, e se a estratégia de reforço junto às eleitoras se converterá em voto quando a campanha começar oficialmente.