O presidente da Argentina, Javier Milei, admitiu em 4 de agosto de 2026 que a pobreza voltou a crescer no país no início deste ano, depois que a aceleração da inflação corroeu a renda das famílias. Em entrevista a um serviço de streaming, ele resumiu o quadro em uma frase que se tornou o centro da repercussão: "A foto é horrível, mas a tendência segue sendo maravilhosa". O presidente defendeu a continuidade do ajuste fiscal aplicado desde o início do seu governo e sustentou que a queda da inflação e a recuperação da atividade econômica indicam melhora estrutural.
Os números citados vêm da Pesquisa Permanente de Domicílios, levantamento do instituto de estatística argentino. Segundo a pesquisa, a pobreza atingiu cerca de 30,7% da população no primeiro trimestre de 2026, acima dos 29,9% registrados no trimestre anterior. A alta interrompeu uma sequência de quedas iniciada após o pico de 57,4% observado no começo de 2024, período marcado pelo choque inicial de ajuste. É esse ponto de partida que o presidente invocou ao pedir uma leitura de prazo mais longo: "Se você pega o nível de 57% para 29%, há muitas pessoas que saíram da pobreza".
Na mesma entrevista, Milei tratou da remuneração do funcionalismo. Afirmou que a queda dos salários dos servidores integra a estratégia de aperto e que se trata de "um resultado desejado do modelo", porque significaria que o ajuste está sendo pago pelo Estado. Disse ainda que os salários do setor privado conseguiram superar parcialmente a inflação e que os rendimentos de trabalhadores informais tiveram recuperação maior. Questionado sobre a dificuldade enfrentada por empresas e consumidores, rejeitou medidas voltadas a setores específicos, argumentando que intervenções na microeconomia produzem distorção e corrupção: "Se um negócio não funciona, como vou salvá-lo?". O presidente também apontou PIB, consumo e exportações em níveis recordes e acusou críticos de tomar a parte pelo todo.
O bloco político da entrevista foi ocupado pela resposta ao governador da província de La Rioja, Ricardo Quintela, que havia dito que um eventual retorno do peronismo ao poder poderia rever medidas do atual governo e até promover desapropriações. Milei comparou a proposta ao modelo venezuelano. Mais cedo no mesmo dia, o chefe de gabinete, Diego Santilli, já havia dito que a declaração equivalia a defender a manutenção da pobreza no país. Por fim, ao comentar a crise migratória em Ceuta, território espanhol no norte da África, o presidente argentino diferenciou imigração de "invasão" e afirmou que o chefe de governo espanhol, Pedro Sánchez, teria mudado de posição sobre o tema.
É preciso registrar um limite desta apuração: até o momento, apenas um veículo cobriu o episódio dentro do recorte acompanhado aqui, o que impede a comparação entre enquadramentos concorrentes e deixa a narrativa ancorada nas falas do próprio entrevistado. Não há, nesse material, réplica de economistas, de centrais sindicais ou da oposição parlamentar argentina.
O que ainda não se sabe: a matéria não informa quantas pessoas, em números absolutos, voltaram à condição de pobreza no trimestre, nem qual foi a perda real acumulada dos salários do setor público. Também não há detalhamento sobre a margem estatística que separa os 29,9% dos 30,7%, sobre o comportamento da indigência no mesmo período, nem sobre qualquer medida concreta que o governo pretenda adotar diante da piora do indicador.