A disputa pelo governo de Pernambuco chegou à última semana de agosto de 2026 com dois movimentos que se cruzam. De um lado, a primeira pesquisa Datafolha divulgada depois do encerramento do prazo de registro de candidaturas mostra a governadora Raquel Lyra (PSD) à frente do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB). De outro, o candidato do PSB acusou a gestão estadual de coordenar uma milícia digital para atacar adversários, acusação que a governadora classifica como falsa.
O levantamento ouviu 1.204 eleitores pernambucanos de 16 anos ou mais, em entrevistas presenciais realizadas entre 18 e 20 de agosto, e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral. No cenário estimulado, Raquel Lyra tem 47% das intenções de voto e João Campos, 40%. Ivan Moraes (PSOL), Renan (Missão), Professora Camila (UP) e Guilherme Fonseca (PSTU) aparecem com 1% cada. Brancos e nulos somam 5%, e os indecisos, 4%. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. No voto espontâneo, quando os nomes não são apresentados ao entrevistado, a governadora tem 39% e o ex-prefeito, 26%, com 25% de indecisos. Os dois também lideram a rejeição: 32% dizem que não votariam em Campos de jeito nenhum, e 29% dizem o mesmo sobre Lyra. A aprovação do governo estadual é de 66%, contra 29% de reprovação, e metade dos eleitores avalia a gestão como ótima ou boa. Na corrida por uma das duas vagas ao Senado, Marília Arraes (PDT), Humberto Costa (PT), Mendonça Filho (PL) e Eduardo da Fonte (PP) aparecem tecnicamente empatados, com 15%, 14%, 12% e 11%.
O segundo movimento veio na quarta-feira, 26. Depois de uma reportagem de televisão exibir gravações atribuídas a Amizaday Andrade da Silva, servidor da Caixa Econômica Federal cedido à Secretaria de Turismo de Pernambuco, João Campos afirmou que denuncia há mais de um ano a existência de um gabinete do ódio voltado contra ele, seus aliados e sua família, e disse que quem governa o Estado não pode coordenar uma milícia digital. O candidato informou que seus advogados adotarão medidas sobre o caso. Nas gravações, o servidor fala em uma estrutura com mais de 300 perfis e diz ter participado de reunião com integrantes do governo em que a rede foi tratada como canal para desidratar o adversário. Uma empresa relacionada aos perfis e beneficiária de publicidade estadual é investigada pela Polícia Federal por suposta divulgação de informações falsas. O servidor afirmou ter deixado a sociedade da empresa em setembro de 2024, e a empresa negou participar de rede de ataques, sustentando que os recursos de publicidade foram recebidos dentro das normas legais. Raquel Lyra atribuiu as acusações a velhas práticas do PSB, disse que não abre mão da defesa da democracia, anunciou que tomará as medidas cabíveis e informou que o servidor citado foi exonerado.
A cobertura de centro concentrou-se nos números e na metodologia do levantamento, com recortes de gênero, idade, escolaridade, renda, região e alinhamento político, sem enquadrar a denúncia. Veículos de direita relataram o episódio dando espaço equivalente à acusação e à resposta da governadora, com destaque para a exoneração imediata do servidor e para a ressalva de que a investigação segue sem conclusão sobre responsabilidade criminal ou eleitoral. Veículos de esquerda não publicaram cobertura própria do caso até o momento, de modo que a leitura que cobraria a origem do dinheiro público de publicidade institucional não aparece no conjunto analisado.
A convergência entre as duas coberturas existentes é que a eleição estadual está polarizada entre dois nomes, que a governadora chega com vantagem numérica e aprovação majoritária, e que a acusação ainda não foi confirmada por nenhuma autoridade. A divergência de ênfase fica entre o peso dado ao desempenho eleitoral e o peso dado ao episódio de redes sociais.
O que ainda não se sabe é se a rede de perfis existiu como descrita nas gravações, quem a financiou e se verba de publicidade estadual foi de fato usada para custeá-la. Também não há informação pública sobre os valores pagos à empresa citada, sobre o estágio do inquérito da Polícia Federal, nem sobre a autenticidade e o contexto integral das gravações. E como o campo da pesquisa foi anterior à divulgação do material, não é possível medir ainda qual o efeito do episódio sobre a intenção de voto em Pernambuco.