O Júri Nacional Eleitoral do Peru proclamou, na sexta-feira, Keiko Fujimori como presidente eleita, encerrando um dos processos eleitorais mais apertados da história recente do país. A candidata do partido Força Popular venceu o segundo turno, realizado em 7 de junho, com 50,135% dos votos contra 49,865% do adversário de esquerda Roberto Sánchez. A diferença ficou em cerca de 49,6 mil votos, num universo de 18 milhões de eleitores. A proclamação só ocorreu semanas depois da votação, em razão da margem estreita e da judicialização da contagem. Keiko toma posse em 28 de julho, governará até 2031 e se torna a primeira mulher a presidir o Peru.
A cobertura de centro relatou os fatos com precisão: os percentuais certificados pelo JNE, a rejeição do pedido de Sánchez para anular votos do exterior e o histórico da candidata, que chegou ao segundo turno pela quarta vez e venceu pela primeira. Veículos de centro também recordaram a instabilidade crônica do Peru, que teve oito presidentes em uma década, e o perfil de Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, formada em administração e à frente da Força Popular desde 2013. Análises ouvidas por esses veículos destacaram a fragmentação extrema do país: o primeiro turno teve mais de 30 candidatos, e a soma dos votos de Keiko e Sánchez não chegou a 30% do total, o que aponta para um governo que nascerá sob forte pressão e com Congresso hostil.
Veículos de esquerda enfatizaram o legado autoritário do pai da presidente eleita. Alberto Fujimori governou de 1990 a 2000, promoveu o autogolpe de 1992, suspendeu a Constituição e foi condenado por crimes contra a humanidade e corrupção. Nesse enquadramento, a vitória de Keiko representa o retorno do fujimorismo ao poder e a margem mínima, somada à contestação, alimenta dúvidas sobre a legitimidade do pleito. Esses veículos deram relevo ao fato de que Sánchez, herdeiro político de Pedro Castillo, não reconheceu o resultado, convocou manifestações e recorreu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, alegando irregularidades sobretudo nos votos do exterior.
Veículos de direita enfatizaram o significado regional da eleição. Para essa cobertura, a vitória de Keiko consolida uma guinada conservadora na América do Sul, ao lado do triunfo de Abelardo de la Espriella na Colômbia, num continente em que a maioria dos países passou a ser governada pela direita ou centro-direita. Esses veículos destacaram a plataforma de linha dura contra o crime, a promessa de atrair investimentos privados e a boa recepção de mercados e de líderes conservadores, incluindo a felicitação do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Nesse enquadramento, a contestação da esquerda é tratada como alegação sem provas contra um resultado já certificado pelo tribunal eleitoral.
O gancho brasileiro apareceu na mensagem em que o presidente Lula parabenizou Keiko e propôs uma agenda bilateral ambiciosa, focada em comércio, investimentos, proteção da Amazônia e combate ao crime organizado transnacional. A cobertura observou que o gesto se dá apesar das diferenças ideológicas e reflete um redesenho da política externa brasileira, que aposta em relações bilaterais diante do avanço da direita e do relativo isolamento do governo Lula na região. Keiko respondeu agradecendo e falou em responsabilidade compartilhada pelo desenvolvimento da América do Sul.
O que ainda não se sabe é o desfecho do recurso apresentado por Sánchez à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e se as manifestações convocadas por ele ganharão força. Também permanece em aberto como a nova presidente conseguirá governar com um Congresso fragmentado e hostil, e quais serão os efeitos concretos, para o Brasil, da aproximação bilateral proposta por Lula.