A Polícia Militar de São Paulo instaurou uma investigação preliminar para apurar o relato do candidato do PT ao governo do estado, Fernando Haddad, de que seu motorista teria sido seguido e abordado de forma irregular por uma viatura na zona sul da capital paulista. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, órgão responsável pela apuração, as diligências feitas até agora não encontraram indício de abordagem nem de procedimento irregular por parte dos policiais militares.
Em nota, a Secretaria afirmou ter analisado imagens de cerca de 40 câmeras privadas de residências e de estabelecimentos comerciais ao longo do percurso indicado pelo motorista. De acordo com o texto oficial, não houve interação das equipes policiais com o candidato ou com membros de sua equipe, e a identificação e o trajeto das viaturas foram confirmados pelo sistema de geolocalização dos veículos. A pasta acrescentou que a apuração prossegue e que o procedimento poderá ser convertido em inquérito caso apareçam indícios de irregularidade.
O relato que originou o caso foi feito pelo próprio Fernando Haddad em conversa com jornalistas. O ex-ministro da Fazenda disse que o episódio ocorreu na noite de terça-feira, 11 de agosto, depois de o funcionário deixá-lo em casa, no retorno de um compromisso na Faculdade do Largo São Francisco. Segundo o candidato, a viatura da Polícia Militar emparelhou e ficou colada na traseira do carro conduzido pelo motorista. O condutor entrou no estacionamento de um hotel e, ainda conforme o relato, policiais direcionaram lanternas para iluminar o interior do veículo depois que Haddad já havia descido. O candidato afirmou ter tomado conhecimento do ocorrido apenas na manhã seguinte e preferiu preservar a identidade do funcionário, que descreveu como abalado. "Uma coisa é pedir para parar, pedir documento. Mas não foi isso", disse.
Os dois lados que cobriram o caso convergem nos fatos centrais: houve um relato público de abordagem fora do padrão, houve abertura de apuração no dia seguinte e a conclusão divulgada até aqui é negativa quanto à existência de indícios. Veículos de direita deram destaque à nota da Secretaria e registraram que há vídeo mostrando a viatura passando segundos antes de o carro do candidato estacionar, elemento que mantém em aberto a coincidência de trajeto. A cobertura de centro reproduziu a nota oficial na íntegra e acrescentou que integrantes da cúpula da Segurança Pública descreveram a avaliação como ainda preliminar, além de registrar que Haddad contesta a apuração conduzida pela gestão de Tarcísio de Freitas e as divergências apontadas na versão do motorista. Até o fechamento desta análise, não houve cobertura de veículos de esquerda sobre o episódio no conjunto reunido, o que deixa sem contraponto explícito a leitura que costuma cobrar apuração externa à própria corporação investigada.
A divergência de ênfase entre as coberturas está menos nos fatos e mais no peso dado à resposta institucional. De um lado, a rapidez da checagem e o cruzamento entre imagem e geolocalização aparecem como prova de que a corporação se submeteu à verificação. De outro, permanece a observação de que quem apura é a estrutura de segurança subordinada ao governo estadual em disputa eleitoral, e de que a ausência de registro em câmeras privadas não cobre necessariamente todo o percurso relatado.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não foi divulgado se o motorista já prestou depoimento formal, quais trechos do trajeto ficaram sem cobertura de imagem, nem qual o prazo para a conclusão da investigação preliminar. Também não há informação pública sobre a identificação dos policiais que estavam na viatura registrada no trajeto, nem sobre eventual pedido de acompanhamento por órgão externo à Polícia Militar. Enquanto a apuração não termina, as duas versões seguem sustentadas por bases diferentes: de um lado, o relato do motorista intermediado pelo candidato; de outro, a leitura de imagens e de dados de geolocalização feita pela própria Secretaria da Segurança Pública.