O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu, na quarta-feira 19 de agosto, garantir os recursos para concluir o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, principal projeto do Programa Nuclear da Marinha. A promessa foi feita em Iperó, no interior de São Paulo, durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, onde começou a montagem da seção nuclear do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, o LABGENE, protótipo em escala real e em terra da planta de propulsão da futura embarcação.
No discurso, Lula tratou a obra como questão de soberania. "A gente não tem soberania nacional porque a gente faz discurso. O discurso é só palavra, que o adversário às vezes nem escuta", afirmou, antes de dizer que o país não pode ficar de cabeça baixa a vida inteira. O presidente prometeu voltar a Brasília e arrumar os recursos para terminar o submarino de uma vez por todas, defendeu que o Brasil possa enriquecer urânio para fins pacíficos, como prevê a Constituição, e afirmou que a conclusão do projeto aproximaria o país do grupo de nações com assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
As três reportagens que cobriram a agenda convergem no essencial. Acompanharam a comitiva o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações, Luciana Santos, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Marcos Antonio Amaro, e o comandante da Marinha, almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen. José Múcio afirmou que o programa permitirá ao Brasil exportar tecnologia e que o resultado pertence aos brasileiros, independentemente de política. Também há acordo sobre os dados técnicos: o reator do LABGENE terá 48 megawatts de potência térmica, energia equivalente ao consumo de uma cidade de 20 mil habitantes, e a mesma agenda incluiu a área de construção do Reator Multipropósito Brasileiro, que segundo o governo deve quadruplicar a produção nacional de medicamentos contra o câncer para o Sistema Único de Saúde.
A divergência aparece no que cada cobertura escolhe emoldurar. A cobertura de centro ancorou a promessa no contexto fiscal e lembrou que a fala ocorreu cerca de três meses depois de o governo cortar R$ 4,4 bilhões do orçamento do Ministério da Defesa. Um dos textos de centro foi além e registrou que, ao reclamar da descontinuidade provocada pelos contingenciamentos, o presidente não mencionou que a própria gestão bloqueia despesas quando julga necessário. Já os veículos de esquerda destacaram o eixo do desenvolvimento e da autonomia tecnológica, detalharam a infraestrutura de Aramar, incluindo o Laboratório de Enriquecimento Isotópico e a usina piloto de hexafluoreto de urânio, e reproduziram a avaliação da ministra Luciana Santos de que o submarino é um instrumento de dissuasão diante do agravamento de tensões geopolíticas, sem citar o corte orçamentário. Até o fechamento desta edição, veículos de direita não haviam publicado cobertura própria sobre a agenda em Aramar, de modo que o contraponto sobre custo e prioridade de gasto aparece apenas como registro nos textos de centro.
O evento também rendeu um momento sobre petróleo. Lula chamou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, de magnata e disse que, após a descoberta na Margem Equatorial, ela parece a rainha da Arábia Saudita. Na semana anterior, a estatal informou ter atingido o reservatório do poço de Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, e a executiva confirmou a existência de petróleo sem estimar volume.
O que ainda não se sabe é o mais relevante para medir a promessa. Nenhuma das reportagens informa quanto falta para concluir o submarino Álvaro Alberto, de qual dotação sairão os recursos prometidos, se o aporte entrará no próximo projeto de lei orçamentária e qual a nova data de entrega da embarcação. Também não há detalhamento de quanto do corte de R$ 4,4 bilhões atingiu especificamente o Programa Nuclear da Marinha, nem estimativa do volume recuperável da descoberta na Margem Equatorial.