O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito, pedido pela Polícia Federal, para investigar suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um dia após a autorização, em 30 de julho, o presidente tratou do assunto em entrevista a um podcast e afirmou que não usará o cargo que ocupa para proteger o filho. Disse que ele será tratado como filho de qualquer pessoa, que jamais pedirá a um delegado ou a um juiz para não fazer o que é correto e que, se for culpado, terá de pagar como qualquer cidadão paga quando erra. Afirmou também acreditar na inocência do filho, que hoje mora em Madri, e garantiu que ele voltará ao Brasil se for julgado, em vez de permanecer escondido.
Os pontos factuais em que as diferentes coberturas convergem são claros. O pedido da Polícia Federal chegou ao Supremo na sexta-feira, 24 de julho, durante o plantão judiciário. Depois de manifestação da Procuradoria-Geral da República favorável à livre distribuição, ou seja, sem vínculo obrigatório com a operação que apura fraudes no instituto de previdência, o caso foi novamente sorteado para o mesmo relator, que então autorizou a apuração. A investigação pretende esclarecer se houve tráfico de influência e corrupção na relação do empresário com o Palácio do Planalto e com o Ministério da Saúde. A defesa do investigado nega irregularidades e sustenta que ele não recebeu pagamento por negócios de empresários com o governo.
As ênfases, porém, divergem. Veículos de esquerda concentraram o texto nas declarações do presidente sobre ausência de privilégio, acrescentaram que ele já havia dito, meses antes, que nem familiares nem ministros ficariam livres de investigação, e detalharam que a suspeita envolve a autorização para comercialização de cannabis medicinal em programas ligados à pasta da Saúde. Nesse enquadramento, o episódio é mais um capítulo de uma sequência de acusações contra o filho do presidente que se repete desde 2006, e o inquérito é lido como procedimento comum, sem antecipação de culpa.
Veículos de direita foram na direção oposta ao formular a suspeita no termo mais duro disponível: o objetivo da apuração seria saber se o filho do presidente vendia acesso ao governo federal em troca de pagamentos. Essa cobertura descreve passo a passo a tramitação no tribunal, registra que o relator vinha cobrando da Polícia Federal explicações sobre o andamento das investigações nas semanas anteriores e afirma que essas cobranças geravam descontentamento dentro da corporação. A promessa presidencial de não interferir aparece registrada, mas tratada como compromisso a ser verificado pelo resultado do inquérito, não como garantia.
A cobertura de centro identificada até aqui é rasa: resume-se a uma enquete de leitores, de participação espontânea e sem valor estatístico, perguntando se a investigação pode prejudicar a reeleição do presidente. Entre os 1.042 participantes, a maioria respondeu que não. O dado indica por onde parte da conversa pública está caminhando, mas não substitui apuração nem mede opinião do eleitorado.
O que ainda não se sabe é a maior parte da história. Não há detalhamento público dos elementos que levaram a Polícia Federal a pedir a abertura do inquérito, nem dos valores, contratos ou intermediários eventualmente envolvidos. Também não está definido o prazo da apuração, se haverá medidas cautelares, se o empresário será formalmente convocado a depor no Brasil e se o caso terá alguma conexão posterior com outras investigações em curso no governo federal. Até que o inquérito avance, existe uma autorização judicial para investigar, declarações públicas do presidente e uma negativa da defesa, sem imputação formal de crime.