A líder da oposição venezuelana María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, acusou o governo interino de Delcy Rodríguez de impedir seu retorno à Venezuela em meio à emergência provocada pelos terremotos que atingiram o país em 24 de junho de 2026. Em vídeo gravado na Cidade do Panamá e divulgado nas redes sociais na segunda-feira, 29 de junho, ela afirmou que o regime fechou o espaço aéreo comercial do país para barrar sua entrada e a de milhares de compatriotas dispostos a ajudar nas ações de socorro.
A cobertura de centro, representada pelo Poder360, relatou as declarações de Machado com datação precisa e atribuição direta, sem aderir ao enquadramento da opositora. Segundo ela, voltar à Venezuela tornou-se um imperativo diante da tragédia: "Quero voltar à Venezuela para acompanhá-los nestas horas devastadoras", declarou. Machado está fora do país desde dezembro, quando deixou a Venezuela para receber o Nobel da Paz em Oslo, e em diferentes momentos do ano já havia anunciado a intenção de retornar.
Todos os lados convergem em alguns fatos centrais. Os terremotos deixaram um número elevado de mortos, estimado entre 1.400 e 1.719 vítimas conforme a fonte, e levaram à mobilização de equipes internacionais de busca e resgate, com ajuda humanitária de países como Brasil, Estados Unidos e China. Há cerca de seis meses, o então presidente Nicolás Maduro foi capturado em uma operação militar dos Estados Unidos, e sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu como presidente interina, governando sob pressão de Washington.
É na interpretação do fechamento do espaço aéreo que as coberturas divergem. Veículos de esquerda, como a CartaCapital reproduzindo um despacho da agência francesa AFP, destacaram um dado que relativiza a acusação: o aeroporto internacional de Maiquetía, que atende Caracas, foi fechado por causa dos danos sofridos com os terremotos, e depois reaberto parcialmente para receber voos humanitários, enquanto os aeroportos de Valência e Maracaibo seguiam operando voos internacionais. Sob esse prisma, a ênfase recai na escala humanitária da catástrofe e no contexto de pressão dos Estados Unidos sobre o governo interino.
Veículos de direita, por sua vez, tendem a enfatizar a denúncia da opositora como evidência de um regime autoritário que instrumentaliza a tragédia. Nesse enquadramento, o fechamento do espaço aéreo é manobra política deliberada, e ganham relevo as acusações de Machado de que o governo dificulta a distribuição de alimentos e remédios, retém equipes internacionais de resgate em aeroportos e restringe o trabalho de jornalistas. "Bloquear a informação e manipulá-la nestas situações produz ainda mais vítimas", afirmou a líder.
O que ainda não se sabe é a versão oficial do governo de Delcy Rodríguez sobre as acusações: nenhuma das reportagens traz manifestação do Executivo venezuelano confirmando ou negando a intenção de barrar o retorno da opositora. Tampouco há confirmação independente de quando, e se, Machado conseguirá efetivamente voltar à Venezuela, nem detalhamento sobre o real estado operacional dos aeroportos do país nos dias seguintes à divulgação do vídeo.