O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, deu andamento ao pedido apresentado pela defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula, para que seja investigado um suposto vazamento de dados sigilosos do inquérito conhecido como Farra do INSS. Os advogados protocolaram o requerimento na sede da pasta na segunda-feira, 3 de agosto, e o ministro encaminhou o documento à Corregedoria-Geral da Polícia Federal, fluxo institucional já adotado em casos semelhantes. A expectativa no ministério é aguardar a manifestação da corregedoria antes de decidir se existem elementos que justifiquem uma apuração formal.
No mesmo dia, a Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um terceiro inquérito para investigar suposta corrupção e tráfico de influência atribuídos a Fábio Luís, com foco em favorecimento a empresas parceiras. Os dois inquéritos anteriores foram autorizados pelo ministro André Mendonça: um deles trata da tentativa de favorecer a empresa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, em uma possível venda de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde; o outro trata de licitações na Dataprev, a estatal de processamento de dados da Previdência. O tribunal confirmou as duas autorizações, mas não informou o objeto do terceiro pedido nem quem será o relator. Advogados do investigado afirmam que não tiveram acesso aos autos dos procedimentos já abertos.
A cobertura de centro relatou o caso pelo ângulo do comportamento do ministro da Justiça. Até aqui, ele vinha tentando se manter afastado do atrito entre a Polícia Federal e o Supremo, ainda que a corporação seja subordinada à pasta que ele comanda, postura que incomodou os advogados e integrantes do governo. Nessa leitura, a ida da defesa ao ministério foi um movimento calculado para forçar um posicionamento público do ministro. O gatilho apontado por essa cobertura foi a informação de que a campanha do senador Flávio Bolsonaro teria em mãos áudios de Lulinha com a empresária Roberta Luchsinger, também investigada no mesmo inquérito.
Veículos de direita enfatizaram outro recorte: o acúmulo de procedimentos contra o filho do presidente e a movimentação dos advogados entre o Executivo e o Judiciário na mesma tarde, em Brasília. Essa cobertura registrou as queixas da defesa, que classifica o procedimento da corporação como uso político-eleitoral dos instrumentos de investigação às vésperas da eleição e diz não saber sequer sobre o que tratam os inquéritos. Também sublinhou que a divulgação seletiva dos procedimentos, segundo os advogados, indicaria problema de legalidade na condução do caso, ao mesmo tempo em que destacou que a Polícia Federal não apresentou sua versão.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio até o momento. A leitura provável desse lado colocaria o foco no devido processo legal: sigilo de inquérito existe para proteger tanto a apuração quanto o investigado, e a circulação de material sigiloso em ambiente de campanha transformaria prova em instrumento de disputa eleitoral, o que tornaria a apuração do vazamento uma obrigação do Estado e não um favor a quem é investigado.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há informação oficial sobre o conteúdo do terceiro pedido de inquérito, sobre quem será o relator nem sobre o estágio dos dois procedimentos já autorizados. Também não está estabelecido se houve de fato vazamento de dados sigilosos, qual seria a origem e se os áudios citados existem no formato descrito. A Corregedoria-Geral da Polícia Federal não tem prazo divulgado para se manifestar, e a corporação e o tribunal não comentaram publicamente as acusações feitas pela defesa.