A disputa pública entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ganhou novos episódios nas primeiras semanas de julho de 2026, expondo uma fratura na coesão do bolsonarismo às vésperas da corrida presidencial. O atrito, que já vinha se formando desde o fim de 2025 por causa de uma aliança do PL com o ex-ministro Ciro Gomes no Ceará, tornou-se público em 24 de junho, quando Michelle divulgou vídeos nas redes sociais afirmando ter sido 'humilhada' e 'maltratada' ao telefone pelo enteado. Cinco dias depois, ela deixou a presidência do PL Mulher, dizendo priorizar os cuidados com o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, e com a filha do casal.
O episódio mais visível da tentativa de recompor a unidade veio em 3 de julho, quando o deputado Nikolas Ferreira dividiu o palco com Flávio no 3º Seminário Nacional de Comunicação do PL, no Rio de Janeiro, e declarou apoio público à pré-candidatura do senador, dizendo que o grupo não podia 'perder o foco' de derrotar o PT. Dias depois, em 5 de julho, partidos do Centrão que avaliavam apoiar Flávio recuaram, reflexo tanto do desgaste com Michelle quanto da revelação de uma relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso por fraude. Em 7 de julho, uma jornalista da GloboNews revelou que pessoas próximas à equipe de Nikolas teriam ajudado a roteirizar o vídeo de Michelle contra Flávio; Nikolas negou qualquer participação no mesmo dia e afirmou que renunciaria ao mandato caso isso fosse provado. Em 9 de julho, Flávio disse esperar a participação de Michelle na campanha 'no tempo dela', enquanto o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que trabalharia pelos próximos 20 dias, até a convenção nacional do partido em 25 de julho, em São Paulo, para reaproximar os dois.
A cobertura, porém, diverge no enquadramento do episódio. Veículos de esquerda, como Revista Fórum, Le Monde Diplomatique Brasil, Carta Capital e Diário do Centro do Mundo, descreveram a crise como sintoma de fraturas estruturais mais profundas no bolsonarismo, sugerindo que a perda do capital político de Michelle entre mulheres e evangélicos fragiliza eleitoralmente Flávio, e tratando a reaproximação como tentativa de conter danos à pré-campanha. A cobertura de centro, como CNN Brasil, Poder360 e agências de notícias, relatou as falas de Flávio, Nikolas e Valdemar sem atribuir intenção política ao conflito, concentrando-se no calendário partidário e nas declarações oficiais de cada um. Já a cobertura de direita, concentrada na Veja, deu espaço a críticas internas ao próprio campo bolsonarista, como as do ex-ministro Ricardo Salles, que classificou a omissão de Flávio diante dos ataques a Michelle como um erro pessoal, sem atribuir a crise a uma fragilidade ideológica do movimento.
Ainda não está confirmado se a equipe de Nikolas de fato participou da produção do vídeo de Michelle, informação que segue sendo negada pelo deputado. Também não se sabe se Michelle manterá a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, nem se voltará a apoiar publicamente a campanha presidencial de Flávio antes da convenção do PL, marcada para 25 de julho.