O Congresso e o Supremo Tribunal Federal concentraram nesta semana duas decisões que ficaram, cada uma a seu modo, dependentes de um calendário externo. No Senado, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, sinalizou a aliados que só levará ao plenário a proposta de emenda à Constituição que altera a escala de trabalho 6x1 depois da eleição presidencial. No Supremo, o ministro André Mendonça indicou que não tem pressa para responder ao pedido da Procuradoria-Geral da República para enviar à primeira instância os inquéritos que investigam o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A cobertura de centro relatou que o roteiro previsto para a PEC da escala 6x1 passa primeiro pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O senador Omar Aziz deve apresentar o relatório até o fim desta semana. Em seguida, o presidente do colegiado, Otto Alencar, concederia um pedido de vista de prazo curto antes de pautar a matéria, que então seria aprovada na comissão. O passo seguinte, o plenário, é o que depende do cálculo político: como a oposição é contrária ao texto e Alcolumbre precisa desses votos para disputar a reeleição ao comando do Senado em 2027, a leitura de aliados é que ele espere o resultado da disputa presidencial para decidir. Um parlamentar que acompanha a tramitação, ouvido sob reserva, disse temer que o sinal dado não se confirme. A assessoria do presidente do Senado foi questionada sobre o calendário e não respondeu.
No mesmo bloco de cobertura, veículos de centro descreveram o impasse no Supremo. Os inquéritos sobre Fábio Luís Lula da Silva apuram suspeita de tráfico de influência envolvendo o Ministério da Saúde e a Dataprev, e foram desmembrados da investigação sobre as fraudes nos descontos de aposentados e pensionistas do INSS, relatada pelo próprio Mendonça. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se, em parecer sob sigilo, pelo envio dos casos à primeira instância. A avaliação predominante é que Mendonça rejeite o pedido, com dois argumentos: os inquéritos nasceram de uma investigação que já tramita na Corte e citam autoridades com foro privilegiado, o que, nessa leitura, impediria um juiz de primeiro grau de decidir sobre elas. Um terceiro inquérito sobre o empresário está com o ministro Flávio Dino. O pano de fundo é o atrito entre o gabinete de Mendonça e a cúpula da Polícia Federal, que reclama de interferência na condução das apurações, enquanto o gabinete vê movimentos para atrasar o caso.
Na mesma janela, a agenda do Executivo seguiu em outro registro. Luiz Inácio Lula da Silva participou, no Palácio do Planalto, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, de reunião do Contrata+Brasil, plataforma do governo federal voltada a ampliar a participação de pequenos negócios nas contratações públicas.
As divergências de cobertura aparecem menos no enquadramento e mais na ausência dele. Veículos de direita presentes no material reunido não trataram de nenhum dos dois impasses institucionais e se concentraram em pauta econômica de baixa densidade política, e não houve, até o momento, cobertura de veículos de esquerda sobre o caso. A lacuna é relevante: o enquadramento que costuma acompanhar a PEC da escala 6x1 pela ótica dos direitos de quem cumpre a jornada, assim como a crítica ao fato de os inquéritos sobre o filho do presidente estarem sob relatoria de um ministro indicado pelo governo anterior, ficou sem representação nas fontes disponíveis. O mesmo vale para a leitura oposta, que trata a permanência dos casos na Corte como teste de accountability. O que se tem, portanto, é um retrato predominantemente factual e de bastidor, construído sobre interlocutores não identificados dos dois lados de cada disputa.
Permanecem em aberto pontos centrais. Não há data marcada para a votação da PEC na comissão nem no plenário, e nenhuma manifestação pública do presidente do Senado confirma o que ele sinalizou a aliados. O teor do parecer da Procuradoria-Geral da República segue em sigilo, não há prazo para o despacho de Mendonça e não se sabe se o órgão também pedirá o envio à primeira instância do inquérito relatado por Flávio Dino. Também não há, no material reunido, manifestação da defesa do empresário sobre as suspeitas nem resposta formal da Polícia Federal às queixas atribuídas ao gabinete do relator.