A Venezuela vive uma das maiores catástrofes de sua história recente. Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, ocorridos em menos de um minuto de intervalo em 24 de junho de 2026, deixaram quase 2 mil mortos e um rastro de destruição concentrado no estado de La Guaira, vizinho a Caracas e considerado o marco zero da tragédia. Diante da escala do desastre, a Organização das Nações Unidas anunciou a compra de 10 mil sacos para cadáveres, em coordenação com as autoridades venezuelanas.
O coordenador humanitário da ONU no país, Gianluca Rampolla, afirmou que ao menos 2.500 prédios foram afetados, a maioria com desabamento completo, e alertou que o número de vítimas tende a superar os balanços oficiais. A cobertura de centro, como a da CNN Brasil e a da AFP reproduzida por diversos veículos, relatou os números com sobriedade: cerca de 900 edifícios danificados, ao menos 189 completamente destruídos e milhares de pessoas resgatadas em La Guaira. Um dos poucos momentos de alívio foi o resgate, no sexto dia após os tremores, de uma criança de 3 anos soterrada, feito por uma equipe de socorristas da Jordânia, algo considerado raro já que a janela de sobrevivência costuma ser de 72 horas.
Todos os lados convergem no essencial: a magnitude inédita do abalo, o colapso de edifícios, a chegada de equipes internacionais e o improviso de necrotérios diante da quantidade de corpos. No porto de La Guaira, transformado em necrotério a céu aberto, familiares aguardam para reconhecer os mortos enquanto sacos de cal tentam conter o odor da decomposição.
As divergências aparecem no enquadramento político da tragédia. Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão humanitária e a solidariedade internacional, destacando os mais de 15 mil desalojados e o alerta do Unicef de que 680 mil crianças precisam de ajuda, sem instrumentalizar a catástrofe contra o governo. Já veículos de direita destacaram que o desabamento do conjunto habitacional Urbanismo Hugo Chávez, símbolo do programa Misión Vivienda, expõe falhas estruturais denunciadas há anos pelo Colégio de Engenheiros da Venezuela, e ressaltaram o despreparo do que chamam de ditadura de Maduro. Essa mesma cobertura lembrou que os Estados Unidos, após capturarem Nicolás Maduro em janeiro e enviá-lo a uma prisão em Nova York, anunciaram US$ 300 milhões em ajuda para a reconstrução do porto.
O que ainda não se sabe é o número real de mortos, já que os balanços oficiais vêm do próprio governo venezuelano e são apontados como provavelmente subestimados. Também permanecem em aberto o total de desaparecidos, o destino de longo prazo dos milhares de desalojados e a extensão dos danos estruturais nos edifícios que ainda seguem de pé sob risco de novos tremores secundários.