Ate o momento, apenas um veiculo cobriu o tema, em uma coluna de opiniao de tom sociologico que questiona uma leitura comum sobre a relacao entre religiao e voto no Brasil. O ponto de partida e um dado do Datafolha: entre os fatores que interferem na escolha para presidente, os lideres religiosos aparecem por ultimo, com 23% dos entrevistados dizendo sofrer muita ou alguma influencia. Eles ficam atras da familia, do conjuge, dos jornalistas, dos amigos e ate das pessoas seguidas nas redes sociais.
A tese central da coluna e que esse numero, tomado isoladamente, engana. Ele mediria apenas a influencia mais explicita, aquela que se manifesta como apoio direto a um candidato ou rejeicao aberta a outro. Segundo o autor, doutor em sociologia, esse tipo de intervencao frontal quase nunca ocorre nas igrejas, onde pedir voto do pulpito pode ate causar desconforto. A influencia religiosa, argumenta, age de modo mais discreto, continuo e, por isso, mais eficiente.
O desenvolvimento sustenta que pastor ou padre nunca influenciaram voto sozinhos. Quando influenciam, e porque estao inseridos em um ambiente maior de formacao moral, doutrinaria e afetiva. O pulpito conversa com a escola dominical, com a musica gospel, com a literatura, com os cursos internos, com as redes de amizade e com o vocabulario cotidiano que define o que e certo, errado, ameacador ou desejavel. A repeticao de certos textos biblicos e a enfase permanente em valores como ordem, autoridade, familia e disciplina iriam organizando, ao longo do tempo, uma visao de mundo. Quando a campanha chega, ela encontra uma consciencia ja moldada.
Para ancorar o argumento, a coluna recorre a hipotese da afinidade conservadora, formulada por Jairo Nicolau no livro 'O Pais Dividido'. Evangelicos seriam, em media, mais conservadores do que outros grupos da populacao, e conservadores tenderiam a se alinhar mais facilmente com a direita. Nessa leitura, a eleicao nao cria a afinidade politica: apenas a revela. O texto observa ainda que ha situacoes em que o proprio pastor e moderado ou progressista, mas a denominacao e os fieis ja sao conservadores, de modo que o espaco para influenciar a escolha eleitoral e quase nulo.
Por se tratar de fonte unica, nao ha, ate aqui, contraposicao de veiculos de esquerda, de centro ou de direita sobre o assunto. Ainda assim, o proprio argumento admite leituras divergentes: pode-se enxergar nele a denuncia de um poder de formacao coletiva que escapa ao escrutinio publico, ou a confirmacao de que o voto conservador de evangelicos e uma escolha autentica, e nao manipulacao do pulpito. A coluna nao adota nenhum desses juizos de forma explicita; limita-se a descrever o mecanismo.
O que ainda nao se sabe e como quantificar essa influencia difusa que a propria coluna diz nao ser captada pela pergunta direta da pesquisa. O texto nao apresenta dados que meam o efeito indireto que descreve, nem contrapoe outros levantamentos ou casos de comunidades religiosas de perfil progressista alem da mencao de passagem. Trata-se de uma interpretacao sociologica sobre como a igreja, em seu conjunto, fabrica disposicoes que depois viram preferencia eleitoral, cuja verificacao empirica permanece em aberto.