A menos de um mês do recesso parlamentar, previsto para 17 de julho de 2026, uma série de pautas consideradas prioritárias pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue sem definição no Senado Federal. Propostas que já avançaram na Câmara dos Deputados ou contam com apoio do Planalto esbarram na falta de consenso político e na disputa pela agenda da Casa comandada por Davi Alcolumbre.
Entre os principais exemplos está a PEC da Segurança Pública, apresentada pelo governo como aposta para fortalecer a coordenação entre União, estados e municípios no combate ao crime organizado. Outra proposta travada é a PEC que reduz a jornada de trabalho sem corte de salários, conhecida como fim da escala 6x1. As duas já passaram pela Câmara, mas aguardam o encaminhamento de Alcolumbre para análise na Comissão de Constituição e Justiça.
A cobertura de centro relatou que o travamento das pautas tem como pano de fundo o desgaste na relação entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado. Segundo essa leitura, o imbróglio se intensificou quando Alcolumbre articulou contra a aprovação de Jorge Messias para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Parlamentares ouvidos nos bastidores afirmam que o principal fator do atraso não são as festas juninas ou a Copa do Mundo, mas justamente essa crise institucional.
Veículos de direita enfatizaram um segundo eixo: a corrida eleitoral de 2026 e as articulações para a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Nessa abordagem, ganham destaque os projetos de interesse do mercado e do agronegócio, como o Marco Legal da Inteligência Artificial, a ampliação do teto de faturamento do Microempreendedor Individual e a renegociação de dívidas rurais com subsídios federais, esta última segurada pela própria Câmara por contrariar interesses do governo. Essa cobertura registra ainda que o presidente da Câmara, Hugo Motta, mantém relação mais próxima com o Executivo, o que facilita a aprovação de projetos governistas entre os deputados.
Veículos de esquerda tendem a ler o mesmo cenário pelo prisma das pautas sociais represadas. Nessa perspectiva, o fim da escala 6x1 atende a uma demanda histórica dos trabalhadores e mobiliza sindicatos, enquanto a PEC da Segurança Pública responde à preocupação da população com a criminalidade. O bloqueio dessas propostas por uma queda de braço entre Planalto e Senado faz com que demandas de interesse coletivo fiquem reféns de uma disputa de poder.
Há convergência entre os diferentes enquadramentos sobre os fatos centrais: as pautas estão paradas no Senado, o controle do encaminhamento está nas mãos de Alcolumbre e o desgaste com o Planalto, especialmente após o episódio envolvendo a vaga no STF, é o principal motor do impasse. Antes do recesso, Hugo Motta pretende enviar ao Senado três propostas, entre elas a equiparação da misoginia ao crime de racismo e o Marco da Inteligência Artificial.
O que ainda não se sabe é se haverá tempo hábil para destravar as principais PECs antes de 17 de julho ou se as matérias ficarão para o segundo semestre, já em clima de campanha. Também permanece em aberto se o conflito entre Lula e Alcolumbre será contornado e como a disputa pela reeleição dos comandos das duas Casas vai redesenhar a agenda legislativa nos próximos meses.