O agronegócio brasileiro abriu 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% sobre as 389 solicitações do mesmo período de 2025, segundo levantamento da consultoria de dados Serasa Experian divulgado nesta quarta-feira. A recuperação judicial é o processo em que o devedor pede à Justiça prazo e condições para renegociar dívidas e evitar a falência. O número do trimestre, ainda que maior na comparação anual, ficou abaixo dos 565 pedidos do segundo trimestre de 2025, dos 628 do terceiro e dos 408 do quarto.
Toda a cobertura converge nos números e no diagnóstico do levantamento. Os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica concentraram a alta, com 196 pedidos, avanço de 73,5% ante os 113 do primeiro trimestre de 2025. Entre pessoas físicas houve queda de 6,7%, de 195 para 182 solicitações, das quais 60 partiram de produtores classificados como sem propriedades, categoria que inclui arrendatários e integrantes de grupos familiares ligados à atividade rural. As empresas da cadeia somaram 96 pedidos, alta de 18,5%. Por atividade, o cultivo de soja respondeu por 137 solicitações e a criação de bovinos, por 42. Mato Grosso lidera com 135 pedidos, seguido de Goiás, com 73, Paraná, com 50, Mato Grosso do Sul, com 38, e Minas Gerais, com 34. O responsável pela área de agronegócio da consultoria atribui o quadro a crédito mais seletivo, custos de produção elevados e maior alavancagem dos produtores, e afirma que a recuperação judicial deve permanecer como último recurso.
A cobertura de centro ampliou o enquadramento macroeconômico. Relatou que os juros altos encarecem o custo financeiro no campo, que a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã pressionou o preço de fertilizantes e combustíveis e que as cotações de soja e milho seguem pressionadas para baixo, de modo que a produção recorde não se converte em margem. Registrou ainda que 2025 fechou com 1.990 pedidos, salto de 56% sobre 2024 e recorde da série monitorada, e que o volume de um único trimestre de 2026 já supera os anos inteiros de 2021 e de 2022. Uma advogada especializada em reestruturação, ouvida nessa cobertura, descreveu o quadro como resultado acumulado de pressões desde 2022 e apontou queda no valor médio das dívidas incluídas nos pedidos, sinal de que o problema deixou de ser exclusivo de grandes grupos e já alcança produtores menores. O perfil típico descrito é o do grande proprietário que expandiu por arrendamento, concentrou a produção em soja e se endividou nas safras anteriores.
Veículos de direita destacaram a restrição de crédito e o aumento do endividamento como os fatores centrais da alta, associaram o resultado do campo a um quadro mais amplo de endividamento no país e reforçaram a recomendação de renegociação privada e planejamento financeiro antes de recorrer à Justiça. Nessa leitura, o custo do dinheiro e o ambiente de crédito, e não a produtividade do setor, explicam a inadimplência. Ficaram de fora dessa cobertura as causas climáticas e a queda das cotações de grãos citadas pelo enquadramento de centro.
Até o fechamento desta edição, nenhum veículo de esquerda havia coberto o levantamento. Ficaram ausentes do noticiário os ângulos típicos dessa leitura, como a concentração do endividamento em grandes arrendatários de soja, o modelo de expansão que produziu essa alavancagem e o efeito das quebras sobre trabalhadores rurais e produtores de menor porte.
O que ainda não se sabe é quanto somam as dívidas incluídas nos pedidos do trimestre, quantos processos chegam a plano aprovado e qual a taxa efetiva de recuperação dessas empresas. Nenhuma das reportagens traz resposta do governo federal, do Congresso ou dos bancos credores sobre renegociação de dívidas rurais, e não há projeção fechada para os próximos trimestres: a própria consultoria condiciona o cenário à capacidade de geração de receita, ao comportamento das margens e às condições de renegociação dos compromissos.