A apuração do segundo turno da eleição presidencial do Peru entrava em sua reta final no sábado, 13 de junho, com a conservadora Keiko Fujimori, do Força Popular, à frente do esquerdista Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru. Com 98,5% das atas eleitorais contabilizadas pela Oficina Nacional de Processos Eleitorais, Keiko somava 50,5% dos votos, contra 49,95% do adversário, uma diferença de menos de 18 mil votos.
A cobertura de centro relatou os números de forma direta: a disputa permanecia indefinida uma semana após a votação, realizada no domingo anterior, e a margem entre os dois candidatos era estreitíssima. Na sexta-feira, a vantagem de Fujimori chegou a apenas 600 votos, e em parte da contagem, quando a apuração estava na casa dos 95%, Sánchez chegou a liderar. O resultado, portanto, oscilou ao longo de vários dias antes de a candidata de direita consolidar a dianteira.
Veículos de direita enfatizaram a ampliação da vantagem de Keiko e a apresentaram como representante do conservadorismo que resistiu à tentativa do adversário de judicializar a disputa. Esses veículos destacaram que, depois de perder a liderança, Sánchez acionou o Judiciário peruano: primeiro pediu a anulação de votos do exterior, sobretudo os computados nos Estados Unidos, e depois solicitou a recontagem da apuração, pedido que Keiko rejeitou. O enquadramento à direita tratou a recusa à recontagem como defesa do resultado das urnas.
Veículos de esquerda, por sua vez, tenderiam a ler o mesmo episódio sob outra luz: o esquerdista liderou parte da apuração e só perdeu a dianteira nas atas finais, o que daria fundamento ao seu pedido de recontagem e ao questionamento dos votos do exterior. Sob esse prisma, a recusa de Keiko a uma nova contagem alimentaria a desconfiança sobre a transparência do processo, num país de fundas desigualdades e marcado pela continuidade de um projeto político conservador.
Todos os lados convergem no pano de fundo: o Peru atravessa anos de crônica instabilidade política. Ollanta Humala foi o último presidente a completar o mandato de cinco anos, deixando o cargo em julho de 2016. Desde então, sucederam-se Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra, Manuel Merino, Francisco Sagasti, Pedro Castillo, Dina Boluarte e José Jerí. O atual presidente é José María Balcázar, empossado em 18 de fevereiro deste ano.
O que ainda não se sabe é o resultado final e oficial da eleição. Restavam dezenas de milhares de atas a apurar, e os recursos apresentados por Sánchez ao Judiciário peruano ainda não tinham desfecho. A proclamação do vencedor dependia tanto do fechamento da contagem quanto da resposta da Justiça eleitoral aos pedidos de recontagem e anulação de votos.