O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda. divulgada na quinta-feira, 30 de julho de 2026, que advogado criminalista “não sabe defender inocente” e que “criminalista defende bandido”. A frase foi dita quando ele explicava por que não contratou um especialista em direito criminal durante o período em que esteve preso, em 2018, no âmbito da Operação Lava Jato. Na mesma entrevista, o presidente relatou que sofreu pressão para substituir o advogado Cristiano Zanin, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, mas manteve a escolha, e disse que recusou propostas de acordo para deixar a prisão porque queria provar a própria inocência.
A reação da advocacia veio em dois tempos. Na sexta-feira, 31 de julho, a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil divulgou nota classificando a declaração como um preconceito inaceitável quanto à função da advocacia criminal, com o agravante de ser difundida pelo presidente da República. No sábado, 1º de agosto, o presidente nacional da entidade, Beto Simonetti, foi além e cobrou retratação pública. Em nota, ele afirmou que a advocacia criminalista não defende o crime, mas a Constituição, o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, e pediu respeito a uma função que classificou como essencial à administração da Justiça e à preservação do Estado Democrático de Direito.
A cobertura de centro se ateve a esse encadeamento factual: transcreveu as notas das duas instâncias da entidade, situou a data e o contexto em que a frase foi dita e evitou adjetivação própria, apresentando o episódio como uma controvérsia entre o chefe do Executivo e a representação institucional dos advogados. Já os veículos de direita ampliaram o alcance da repercussão, reunindo manifestações de associações de classe e de juristas. A Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas chamou a afirmação de grave, estigmatizante e incompatível com os fundamentos do Estado Democrático de Direito. O Instituto de Defesa do Direito de Defesa afirmou que a fala parte de uma confusão que a entidade tenta desfazer há mais de duas décadas. Em carta aberta, o criminalista Antonio Claudio Mariz lembrou que ninguém é bandido antes de ser julgado e citou os advogados que defenderam o presidente no período sindical e o criminalista que depois ocupou o Ministério da Justiça no primeiro mandato petista. O jurista Aury Lopes Jr. classificou a declaração como um grande erro.
Há convergência entre as coberturas sobre os fatos centrais: a frase existe e está registrada em vídeo, as duas manifestações da entidade são públicas e o pedido de retratação é formal. Todas as versões também registram, em maior ou menor grau, o contexto processual do presidente, que ficou preso por 580 dias e teve condenações posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, elemento usado pelas associações de criminalistas justamente para argumentar que o caso dele demonstra a importância da defesa técnica.
A divergência aparece no peso dado ao episódio. Onde a cobertura de centro descreve uma cobrança institucional pontual, os veículos de direita constroem um acúmulo de vozes críticas e enfatizam a contradição entre o discurso e a biografia do presidente, além de conectá-lo a outros desgastes recentes do governo. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria sobre a repercussão, o que deixa sem registro o enquadramento que tenderia a situar a frase como desabafo de quem se considera vítima de erro judicial e a questionar a proporção dada ao caso.
O que ainda não se sabe é se o presidente ou a Presidência da República vão responder à cobrança, se haverá retratação em algum formato e se as entidades de classe pretendem levar o assunto a alguma manifestação formal além das notas já divulgadas. Nenhuma das coberturas registra tentativa de contato com o Palácio do Planalto nem resposta de aliados do presidente.