Pela primeira vez, crianças brasileiras de 10 a 13 anos passaram a usar menos o celular. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2 de julho de 2026, mostram que essa faixa etária foi a única a registrar queda tanto na posse de aparelho próprio quanto no acesso à internet entre 2024 e 2025. A proporção de crianças com celular caiu de 56,7% para 55,2%, e o acesso à rede recuou de 84,9% para 84,4%. No mesmo período, o país seguiu em direção oposta: quase 90% da população de 10 anos ou mais já tem telefone celular, e os idosos foram justamente o grupo que mais ampliou a posse do aparelho.
A cobertura de centro, apoiada nos números oficiais do IBGE, relatou que os principais motivos alegados para as crianças não acessarem a rede foram a falta de necessidade, com 33,8%, e a preocupação com privacidade ou segurança, com 30,3%. O analista do IBGE Gustavo Fontes, que apresentou os dados, ponderou que a tendência pode estar ligada a dois movimentos recentes: a restrição ao uso de celulares nas escolas, em vigor desde 2025, e a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, o chamado ECA Digital. Ele apresentou essa relação como hipótese, e não como causa comprovada.
Veículos de esquerda enfatizaram o papel da regulação estatal na proteção da infância. Nessa leitura, o ECA Digital e a restrição de celulares nas escolas são políticas públicas que respondem a preocupações legítimas com a saúde mental dos jovens e com a exposição de menores às redes sociais, colocando o Estado como garantidor dos direitos das crianças diante do poder das plataformas de tecnologia.
Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram a responsabilidade das famílias e os ganhos de ordem no ambiente escolar. A cobertura destacou que a decisão dos pais de adiar a compra do primeiro celular nasce do medo de assaltos nas ruas, de golpes virtuais, de cyberbullying e do impacto das telas na saúde mental. Também celebrou os resultados da lei que restringe celulares nas escolas, já presente em cerca de 92% dos colégios de educação básica: segundo dados citados, 95% dos diretores observaram mais atenção dos alunos, 97% relataram maior engajamento e 88% associaram a proibição à queda de episódios de violência digital.
Os dois lados convergem em um ponto central: a queda no uso do celular pelas crianças é um fenômeno real e inédito, e tanto a segurança quanto o bem-estar digital aparecem como fatores decisivos. A diferença está na ênfase. Enquanto a leitura de esquerda destaca a regulação pública como avanço de direitos coletivos, a de direita valoriza a escolha responsável das famílias e a disciplina restaurada nas escolas.
O que ainda não se sabe é se a queda representa uma inversão duradoura de tendência ou apenas uma oscilação de um ano. As reportagens não detalham quanto do recuo se deve a cada fator isolado, nem trazem uma avaliação independente dos efeitos do ECA Digital sobre o comportamento das famílias. Também falta clareza sobre como esses números evoluirão nas próximas edições da pesquisa.