O escritor e psiquiatra Augusto Cury, de 67 anos, chegou ao fim de agosto como um dos nomes mais procurados da eleição presidencial de 2026. Candidato do Avante, com o ex-deputado federal mineiro Júlio Delgado como vice, ele oficializou a candidatura em convenção no início do mês e estreou no palanque no primeiro debate entre presidenciáveis, no domingo, 23 de agosto, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado e do empresário Renan Santos. As ausências do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do senador Flávio Bolsonaro e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema quase o levaram a desistir: Cury anunciou que faria um protesto e não entraria no estúdio, mas voltou atrás pouco depois e participou do confronto.
A cobertura de centro relatou os fatos que nenhum lado contesta. Natural de Colina, no interior de São Paulo, Cury é médico psiquiatra formado em São José do Rio Preto, professor de pós-graduação e autor de best-sellers como O Vendedor de Sonhos, adaptado ao cinema em 2016. Disputa um cargo eletivo pela primeira vez e declarou R$ 242,2 milhões em bens à Justiça Eleitoral, entre 17 fazendas, imóveis, investimentos e participações societárias, o que o coloca em segundo lugar em patrimônio declarado entre os presidenciáveis. Nas pesquisas nacionais divulgadas até 21 de agosto, aparecia entre 1% e 2% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro lideravam a disputa.
O programa também é ponto de convergência na cobertura. Cury propõe trocar o presidencialismo pelo semipresidencialismo, com um primeiro-ministro responsável pela administração cotidiana, e afirma que convidaria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para o posto. Defende reforma do Supremo Tribunal Federal com mandato fixo de oito anos no lugar da permanência até a aposentadoria compulsória, mudança na forma de indicação dos ministros e pelo menos três mulheres entre as nove vagas. Na educação, quer levar à rede pública o programa Escola da Inteligência e transformar o ensino médio em etapa de formação para o trabalho. Na saúde, prevê ampliar o acesso a psicólogos e psiquiatras no Sistema Único de Saúde. Na economia, fala em simplificação tributária para pequenas e médias empresas, clubes de empreendedorismo e formação em inteligência artificial e robótica.
As divergências aparecem no que cada lado escolheu examinar. Veículos de esquerda destacaram os questionamentos sobre as credenciais acadêmicas do candidato: o doutorado obtido na Florida Christian University, instituição sem reconhecimento formal no sistema educacional dos Estados Unidos, o título atribuído pela Uniderc, não credenciada pelo Ministério da Educação, e a Teoria da Inteligência Multifocal, formulada por ele em 1999 fora de universidades e sem pesquisa revisada por pares. Esses veículos também sublinharam a admiração declarada por Paulo Guedes, ex-ministro da Economia associado a privatizações e cortes de gasto público, e a participação do candidato em holding ligada ao agronegócio. A cobertura de centro tratou a mesma trajetória como perfil de terceira via, dando espaço à autodefinição de 'mente capitalista e coração social' e à recusa do candidato em ser rotulado como centro, e registrou o embate no debate em que ele criticou a agressividade de Renan Santos contra eleitores de Lula. Veículos de direita não produziram cobertura relevante sobre o candidato até o momento, o que deixa a avaliação da sua agenda liberal sem contraponto do campo que ela pretende disputar.
O que ainda não se sabe é como qualquer dessas propostas sairia do papel. Nenhuma das reportagens explica como a mudança para o semipresidencialismo e a reforma do Supremo passariam pelo Congresso, já que ambas exigem emenda constitucional. Tarcísio de Freitas não se manifestou publicamente sobre o convite para primeiro-ministro. Também não há estimativa de custo para a educação em tempo integral nem para a ampliação da saúde mental no Sistema Único de Saúde, e não está medido se o pico de buscas pelo nome do candidato depois do debate se converte em intenção de voto.