A visita do presidente argentino Javier Milei a São Paulo, para um ato partidário ao lado de Flávio Bolsonaro, abriu a mais séria crise diplomática entre Brasil e Argentina dos últimos anos. Durante a convenção que oficializou Flávio como candidato à Presidência, Milei acusou o governo brasileiro de financiar uma campanha contra a Argentina, chamou o ministro Alexandre de Moraes de lixo careca por não autorizar uma visita a Jair Bolsonaro e disse que esquerdistas colocaram a Argentina na pobreza. Questionado por jornalistas em Brasília, durante a recepção ao presidente da Coreia do Sul, Lula respondeu com ironia: Quem é esse cara?.
A cobertura de centro relatou os fatos com precisão institucional: em resposta às declarações, o governo brasileiro convocou o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, ainda na madrugada de domingo, e horas depois o Itamarati convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi. A convocação de embaixadores é um dos principais instrumentos diplomáticos de protesto, pelo qual um governo sinaliza que considera a relação bilateral em momento de tensão. O ministro Mauro Vieira e o embaixador Bitelli se reuniram para uma primeira avaliação da situação.
Os três lados de cobertura convergem em um ponto essencial: houve uma escalada real, com gestos formais de protesto de parte a parte, deflagrada por um discurso duro de Milei em evento de campanha da direita brasileira. A divergência está no significado atribuído ao episódio. Veículos de esquerda destacaram que a ofensiva de Milei integraria um projeto de extrema-direita que une o argentino, Trump e os Bolsonaros num bloco subserviente a Washington, e que a chamada guerra jurídica, ou lawfare, perseguiria lideranças populares como Lula e Cristina Kirchner. Nesse enquadramento, a defesa da ex-presidente argentina passou a contar com reforço de juristas brasileiros que pretendem levar o caso ao Comitê de Direitos Humanos da ONU.
Já veículos de direita deram menos espaço ao episódio, mas naquele campo a leitura tende a enfatizar Milei como aliado ideológico que denuncia o aparelhamento da esquerda, defende a livre iniciativa e a responsabilidade fiscal, e critica o que considera excesso do Judiciário brasileiro em torno de Moraes e do STF. A convocação de embaixadores, por essa ótica, seria reação exagerada do governo Lula a uma crítica política legítima.
Reportagens de contexto lembraram que a rivalidade entre os dois países é antiga e transcende o futebol: Brasil e Argentina já lutaram em lados opostos na Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828, e na Guerra do Prata, no início da década de 1850, antes da longa pacificação selada pelo Mercosul em 1991. Historiadores ressalvam, porém, que, já plenamente constituídos como Estados republicanos, os dois países nunca chegaram a um confronto armado.
O que ainda não se sabe é como a Argentina responderá à convocação de seu embaixador, se haverá novas medidas diplomáticas e como o desgaste afetará a relação bilateral e o Mercosul às vésperas de um ano eleitoral no Brasil.