O consultor político argentino Fernando Cerimedo foi preso na terça-feira, 18 de agosto de 2026, no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, quando se preparava para embarcar em um voo com destino a Buenos Aires. Ele é suspeito de envolvimento em um ataque a tiros ocorrido na véspera contra uma mulher com quem manteve relacionamento, atingida por três disparos em via pública por dois homens que chegaram de motocicleta vestidos como entregadores. O comandante da Polícia de Santa Cruz, David Gómez, afirmou que os investigadores trabalham com várias hipóteses e que a primeira delas é a de um desentendimento de natureza afetiva entre os dois. Cerimedo nega qualquer participação no crime.
O nome do argentino não é novo no noticiário político brasileiro. Fundador do portal La Derecha Diario, ele atuou na estratégia digital e na organização de fiscais de voto da campanha presidencial de Javier Milei, em 2023, e já havia se aproximado do entorno de Jair Bolsonaro antes disso. Em novembro de 2022, poucos dias depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, fez uma transmissão ao vivo em que apresentou um suposto relatório técnico sugerindo irregularidades nas urnas eletrônicas. O Tribunal Superior Eleitoral refutou o material, e a transmissão acabou suspensa. Em 2024, a Polícia Federal o indiciou como integrante do chamado Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral, no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado. A Procuradoria-Geral da República, sob o comando do procurador-geral Paulo Gonet, decidiu não denunciá-lo: para o órgão, ficou comprovada a divulgação de informações infundadas, mas não a adesão consciente ao projeto golpista.
Esses fatos aparecem em todos os lados da cobertura, assim como a prisão no aeroporto, a investigação boliviana ainda em curso, a ligação com Javier Milei e a amizade com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Há convergência também sobre um episódio recente: em julho de 2026, o ex-deputado fez uma nova transmissão ao vivo com Cerimedo levantando suspeitas sobre a integridade da votação brasileira, meses antes do pleito de outubro.
As ênfases, porém, se separam. Veículos de esquerda trataram o caso como retrato de uma rede transnacional da extrema direita, descrevendo o argentino como articulador de desinformação que conecta Argentina, Brasil e Bolívia, país onde atuava como assessor externo do presidente Rodrigo Paz; parte dessa cobertura apresentou a suspeita como tentativa de assassinato encomendada contra a mulher e associou o consultor à família Bolsonaro já no título, sem registrar que ele nega o crime. A cobertura de centro concentrou-se na reconstituição do ataque, com a dinâmica dos atiradores e as falas literais da polícia boliviana, e tratou a conexão brasileira como contexto documentado. Veículos de direita deram peso à decisão da Procuradoria-Geral da República de não oferecer denúncia por falta de provas de adesão ao golpe e mantiveram o vocabulário restrito à suspeita, sem rótulos ideológicos.
O que ainda não se sabe é o essencial do caso criminal. A polícia boliviana não identificou os autores dos disparos, não formalizou acusação contra Cerimedo e não descartou outras linhas de apuração. A própria cobertura diverge sobre a vítima, ora descrita como esposa, ora como ex-mulher ou ex-namorada, e identificada por nomes diferentes. Não há informação sobre eventual pedido de extradição, sobre o estado de saúde da mulher baleada ou sobre efeitos do episódio nos inquéritos brasileiros, dos quais o argentino já havia ficado de fora na fase de denúncia.