Polícia Federal não vê violação de sigilo por blogueiro alvo de Alexandre de Moraes
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Um relatório de inteligência da Polícia Federal que embasou decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirma não haver indício de que o blogueiro maranhense Luís Pablo tenha cometido violação de sigilo funcional, e diz não ser possível apontar com máxima certeza que ele tenha recebido dinheiro para publicar reportagens sobre o ministro Flávio Dino. Ainda assim, Moraes registrou em despacho indícios relevantes do crime de perseguição e autorizou novas buscas. O blogueiro publica desde novembro de 2025 reportagens sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e familiares, uso que o ministro nega ser irregular. O mesmo relatório aponta um depósito de R$ 100 mil feito pelo advogado Diogo Lima para quitar parte de um imóvel rural de R$ 461 mil comprado pelo jornalista, além de notas fiscais da Assembleia Legislativa do Maranhão em favor do blog, entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil.
Um ministro do Supremo Tribunal Federal ordenou busca e apreensão contra um jornalista que publicava reportagens críticas a outro ministro, rastreou a fonte dele e, ao autorizar novas diligências, afirmou existir indício de crime que a própria Polícia Federal disse não ter identificado.
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O relatório de inteligência da Polícia Federal que embasou a busca e apreensão autorizada por Alexandre de Moraes não encontrou indício de violação de sigilo funcional pelo blogueiro Luís Pablo, alvo da operação por reportagens sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por Flávio Dino. A decisão do ministro, ainda assim, afirmou haver indícios de perseguição.
Um relatório de inteligência da Polícia Federal que serviu de base para uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concluiu que não há indício de que o blogueiro maranhense Luís Pablo tenha cometido crime de violação de sigilo funcional. O documento afirma ainda não ser possível apontar com máxima certeza que o jornalista tenha recebido dinheiro para produzir reportagens sobre o ministro Flávio Dino. Mesmo assim, ao autorizar novas diligências, Moraes escreveu ter identificado indícios relevantes do crime de perseguição contra o colega de Corte, citando manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
O caso nasceu de um pedido do próprio Flávio Dino. Desde novembro de 2025, Luís Pablo publicava em seu blog sobre política maranhense reportagens a respeito do uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro e por familiares, uso que Dino nega ter sido irregular. Em março de 2026, por causa dessas publicações, o jornalista foi alvo de uma operação autorizada por Moraes e teve dois celulares, um notebook e um pen drive apreendidos. Foi a partir desse material que os investigadores chegaram à fonte dele, o ex-secretário Raimundo Cutrim, também investigado em outro inquérito, relativo ao assassinato de um funcionário da Secretaria de Educação do Maranhão, sob relatoria do próprio Dino, que governou o estado entre 2015 e 2022. Identificada a fonte, a Polícia Federal pediu autorização para uma segunda busca e apreensão, cumprida na semana passada, que atingiu também o advogado Diogo Lima.
A cobertura de centro e a de direita convergem nos fatos e até nas citações. Ambas reproduzem o trecho em que o delegado Alberto Knoll separa as condutas ao encaminhar o documento ao Supremo: não se trata de acusar o jornalista, que estaria acobertado pelo direito à liberdade de imprensa, ao passo que o agente público que acessa dados restritos e os divulga de forma irregular pode responder pelo artigo 325 do Código Penal. Ambas também reproduzem, sem atenuar, os elementos desfavoráveis ao blogueiro: mensagens em que ele enviava textos críticos a Dino para Diogo Lima, que sugeria alterações na redação; o comprovante de um depósito de R$ 100 mil feito por Lima e usado para quitar parte de um imóvel rural de R$ 461 mil comprado por Luís Pablo; e notas fiscais emitidas em nome da Assembleia Legislativa do Maranhão em favor do blog, com valores entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil. Questionado, o jornalista atribuiu os pagamentos à veiculação de banners publicitários contratados por uma agência de marketing, e disse que outros veículos recebem o mesmo tipo de verba.
A divergência está no que cada lado coloca no centro. Veículos de direita organizam o texto inteiro em torno do descompasso entre o parecer técnico da polícia e o despacho do ministro, e dão relevo ao fato de a investigação ter sido sorteada para Cristiano Zanin e depois redistribuída a Moraes por decisão do presidente do Supremo, Edson Fachin, sob o argumento de conexão com o inquérito das fake news e o das milícias digitais. Nesse enquadramento, o problema é institucional: concentração de relatoria e decisão contra o que a apuração encontrou. A cobertura de centro sustenta o mesmo achado, mas distribui peso igual à cadeia de dinheiro em torno do blog, tratando os dois planos como perguntas abertas simultâneas. Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o relatório até o fechamento desta reportagem, e o ângulo que costuma organizar essa cobertura, o sigilo da fonte como garantia coletiva e a dependência da imprensa regional em relação à publicidade oficial, aparece aqui apenas de forma indireta, pelo que o próprio relatório e as notas da Assembleia descrevem.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há manifestação do gabinete de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de Flávio Dino ou das defesas de Raimundo Cutrim e Diogo Lima sobre a divergência entre o relatório e a decisão. Não está esclarecido se o ministro revisará o entendimento diante do documento, nem quais elementos concretos sustentam a imputação de perseguição. A própria Polícia Federal registra que não conseguiu determinar se há parentesco entre a fonte, Raimundo Cutrim, e Danilo Cutrim Bezerra, veterinário que vendeu o terreno ao jornalista, observando que o sobrenome é usado por cerca de 14.778 pessoas no Maranhão, segundo o IBGE. Também segue sem resposta a origem completa dos depósitos de múltiplas fontes pagadoras que quitaram o imóvel.
Em decisão, ministro vê ‘indícios relevantes’ de crime que investigadores disseram em relatório de inteligência não ter identificado

Um relatório de inteligência da Polícia Federal (PF) utilizado para fundamentar uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
