Um relatório de inteligência da Polícia Federal que serviu de base para uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concluiu que não há indício de que o blogueiro maranhense Luís Pablo tenha cometido crime de violação de sigilo funcional. O documento afirma ainda não ser possível apontar com máxima certeza que o jornalista tenha recebido dinheiro para produzir reportagens sobre o ministro Flávio Dino. Mesmo assim, ao autorizar novas diligências, Moraes escreveu ter identificado indícios relevantes do crime de perseguição contra o colega de Corte, citando manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
O caso nasceu de um pedido do próprio Flávio Dino. Desde novembro de 2025, Luís Pablo publicava em seu blog sobre política maranhense reportagens a respeito do uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro e por familiares, uso que Dino nega ter sido irregular. Em março de 2026, por causa dessas publicações, o jornalista foi alvo de uma operação autorizada por Moraes e teve dois celulares, um notebook e um pen drive apreendidos. Foi a partir desse material que os investigadores chegaram à fonte dele, o ex-secretário Raimundo Cutrim, também investigado em outro inquérito, relativo ao assassinato de um funcionário da Secretaria de Educação do Maranhão, sob relatoria do próprio Dino, que governou o estado entre 2015 e 2022. Identificada a fonte, a Polícia Federal pediu autorização para uma segunda busca e apreensão, cumprida na semana passada, que atingiu também o advogado Diogo Lima.
A cobertura de centro e a de direita convergem nos fatos e até nas citações. Ambas reproduzem o trecho em que o delegado Alberto Knoll separa as condutas ao encaminhar o documento ao Supremo: não se trata de acusar o jornalista, que estaria acobertado pelo direito à liberdade de imprensa, ao passo que o agente público que acessa dados restritos e os divulga de forma irregular pode responder pelo artigo 325 do Código Penal. Ambas também reproduzem, sem atenuar, os elementos desfavoráveis ao blogueiro: mensagens em que ele enviava textos críticos a Dino para Diogo Lima, que sugeria alterações na redação; o comprovante de um depósito de R$ 100 mil feito por Lima e usado para quitar parte de um imóvel rural de R$ 461 mil comprado por Luís Pablo; e notas fiscais emitidas em nome da Assembleia Legislativa do Maranhão em favor do blog, com valores entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil. Questionado, o jornalista atribuiu os pagamentos à veiculação de banners publicitários contratados por uma agência de marketing, e disse que outros veículos recebem o mesmo tipo de verba.
A divergência está no que cada lado coloca no centro. Veículos de direita organizam o texto inteiro em torno do descompasso entre o parecer técnico da polícia e o despacho do ministro, e dão relevo ao fato de a investigação ter sido sorteada para Cristiano Zanin e depois redistribuída a Moraes por decisão do presidente do Supremo, Edson Fachin, sob o argumento de conexão com o inquérito das fake news e o das milícias digitais. Nesse enquadramento, o problema é institucional: concentração de relatoria e decisão contra o que a apuração encontrou. A cobertura de centro sustenta o mesmo achado, mas distribui peso igual à cadeia de dinheiro em torno do blog, tratando os dois planos como perguntas abertas simultâneas. Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o relatório até o fechamento desta reportagem, e o ângulo que costuma organizar essa cobertura, o sigilo da fonte como garantia coletiva e a dependência da imprensa regional em relação à publicidade oficial, aparece aqui apenas de forma indireta, pelo que o próprio relatório e as notas da Assembleia descrevem.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há manifestação do gabinete de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de Flávio Dino ou das defesas de Raimundo Cutrim e Diogo Lima sobre a divergência entre o relatório e a decisão. Não está esclarecido se o ministro revisará o entendimento diante do documento, nem quais elementos concretos sustentam a imputação de perseguição. A própria Polícia Federal registra que não conseguiu determinar se há parentesco entre a fonte, Raimundo Cutrim, e Danilo Cutrim Bezerra, veterinário que vendeu o terreno ao jornalista, observando que o sobrenome é usado por cerca de 14.778 pessoas no Maranhão, segundo o IBGE. Também segue sem resposta a origem completa dos depósitos de múltiplas fontes pagadoras que quitaram o imóvel.